Que saudades dos tempos de infância em que construíamos carrinhos de rolamentos, depois de percorrermos as lixeiras das oficinas à procura de material. Como nos divertíamos a construí-los e a deslizar pelas ruas dos nossos bairros!
A aldeia de Tó recuperou esta bonita tradição e organizou uma prova de carrinhos de rolamentos. As fotos foram retiradas da página "Tó, Mogadouro", no Facebook.
Como se pode verificar pelas imagens, participaram miúdos, jovens e graúdos. Parabéns aos organizadores e aos participantes.
figuras, património, lugares e histórias que fazem (e fizeram) o quotidiano mogadourense
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domingo, 23 de julho de 2017
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
terça-feira, 23 de junho de 2015
A noite "mágica" de São João
Celebra-se na próxima noite mais uma importante festividade pagã que, à semelhança de tantas outras, foi assimilada pela igreja cristã que lhe atribuiu o patronato de São João Baptista. O concelho de Mogadouro conserva lendas interessantes sobre esta data, nomeadamente no que à água diz respeito. Embora o culto desta noite esteja mais conotado com o fogo, o que é facto é que as fontes, o orvalho e os rios também estão directamente relacionados com esta festividade.
Das respostas ao inquérito paroquial de 1758 também se colhem outros dados relacionados com esta crença. Em Paradela, o pároco João Martins escreveu que havia uma fonte situada no Vale do Manco “cujas agoas (…) tem virtude para curar sarna e outros achaques, dia de S. João Baptista (…) e dia de S. Pedro (…) e alguns dizem que a todos os terceiros domingos dos meses”. E em Peredo da Bemposta, o padre Thomé Luiz fala da “fonte de Sam Joam”, e diz que “quem se meter nella na manhã de Sam Joam tira a sarna.”
O Abade de Baçal, no vol. IX da sua obra, diz-nos o seguinte: “As Quinquárias, levadas a efeito no dia 13 do mesmo mês pelos tocadores de flauta, e as festas dos pastores em honra de Pales, celebradas a XI das calendas de Maio (21 de Abril), que, embora não caíssem em Junho, se relacionam com o costume de banhar os gados nos rios durante as manhãs de São João e São Pedro, por estar a água benta, pois também naquele dia os pastores romanos pecura sua lustrabant”.
Fonte em Tó.
Assim, desde logo, na freguesia de Tó é-nos referida uma lenda segundo a qual se os pastores mergulhassem as ovelhas numa fonte, durante a noite de S. João, mas antes do nascer do dia, a água curava a ronha dos animais.Das respostas ao inquérito paroquial de 1758 também se colhem outros dados relacionados com esta crença. Em Paradela, o pároco João Martins escreveu que havia uma fonte situada no Vale do Manco “cujas agoas (…) tem virtude para curar sarna e outros achaques, dia de S. João Baptista (…) e dia de S. Pedro (…) e alguns dizem que a todos os terceiros domingos dos meses”. E em Peredo da Bemposta, o padre Thomé Luiz fala da “fonte de Sam Joam”, e diz que “quem se meter nella na manhã de Sam Joam tira a sarna.”
O Abade de Baçal, no vol. IX da sua obra, diz-nos o seguinte: “As Quinquárias, levadas a efeito no dia 13 do mesmo mês pelos tocadores de flauta, e as festas dos pastores em honra de Pales, celebradas a XI das calendas de Maio (21 de Abril), que, embora não caíssem em Junho, se relacionam com o costume de banhar os gados nos rios durante as manhãs de São João e São Pedro, por estar a água benta, pois também naquele dia os pastores romanos pecura sua lustrabant”.
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terça-feira, 15 de abril de 2014
Incursão arqueológica por Tó, Travanca e Palaçoulo
O bom tempo convida a sair para o campo e para revisitar a riqueza patrimonial das nossas terras. Desta feita, tive o privilégio de poder acompanhar uma equipa chefiada pela Dra. Maria de Jesus Sanches, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e uma das arqueólogas mais prestigiadas a nível internacional. Recordo que é nossa conterrânea, natural de Peredo da Bemposta. Possui um curriculum académico verdadeiramente impressionante, sendo considerada uma das maiores autoridades nesta matéria. Por essa razão, a incursão revestiu-se de acrescido interesse, pois permitiu-me apreender conceitos novos e enriquecer sobremaneira o conhecimento rudimentar que nesta área possuo.
Começámos por Tó, onde regressei àquilo que designo por "fraga das covinhas". Tivemos novamente a Manuela e a D. Balbina a conduzir-nos a este interessante conjunto, onde descobri gravuras que me tinham passado despercebidas, nomeadamente os filiformes, ou "unhadas", que enchem o local.
A fraga das covinhas (em Tó) e pormenor do painel, onde se podem observar as "unhadas" junto às covinhas.
E se de repente um arqueólogo sacar da gaita de foles e desatar a tocar belas músicas no meio da floresta? Magnífico momento que haveria de se repetir em Palaçoulo.
Pequeno painel de arte rupestre que tinha passado despercebido, e que praticamente só é observável com recurso a iluminação artificial.
A preparar a merenda, já em Palaçoulo.
O cervídeo do Passadeiro, que ainda irá dar que falar...
Começámos por Tó, onde regressei àquilo que designo por "fraga das covinhas". Tivemos novamente a Manuela e a D. Balbina a conduzir-nos a este interessante conjunto, onde descobri gravuras que me tinham passado despercebidas, nomeadamente os filiformes, ou "unhadas", que enchem o local.
A fraga das covinhas (em Tó) e pormenor do painel, onde se podem observar as "unhadas" junto às covinhas.
E se de repente um arqueólogo sacar da gaita de foles e desatar a tocar belas músicas no meio da floresta? Magnífico momento que haveria de se repetir em Palaçoulo.
Pequeno painel de arte rupestre que tinha passado despercebido, e que praticamente só é observável com recurso a iluminação artificial.
A preparar a merenda, já em Palaçoulo.
O cervídeo do Passadeiro, que ainda irá dar que falar...
Fotos: Antero Neto (clicar nas imagens para ampliar).
A finalizar este registo, resta agradecer ainda ao meu irmão João e a António Cangueiro, que nos serviram de guias em Palaçoulo. A propósito de António Cangueiro, não posso deixar de registar aqui a explicação que ele me deu para as gravuras (unhadas) dos locais de Carvão e Passadeiro. No primeiro caso, diz ele que como nas imediações há várias hortas e um ribeiro, as unhadas representariam as vezes a que cada um dos vizinhos tinha direito de usar a água para rega. No segundo caso, teria sido um pastor que estaria a anotar na parede da fraga as cabeças de gado, à medida que estas atravessavam a ribeira para o outro lado, para que não se perdesse nenhuma...
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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Apresentação do livro "Farandulo..." em Tó
Ontem foi dia de o Farandulo sair à rua em Tó. E, no âmbito da festa, procedeu-se à apresentação do meu último livro "O Farandulo de Tó e Outros Apontamentos Monográficos". Apesar do tempo pluvioso, a festa decorreu na íntegra. O Farandulo percorreu as ruas da aldeia, pedindo esmola e tentando roubar o ramo à Sécia, que ia sendo garbosamente defendida pelo Moço. Os que desempenharam o papel em tempos mais recuados contaram-me que estas lutas rituais eram a doer e, não raramente, os actores pegavam-se mesmo a sério. Outros tempos...
Ritualmente, o Farandulo tinha que tisnar todas as moças solteiras da aldeia. Quando não o conseguia de outra maneira, plantava-se à porta da sacristia e acabava ali o serviço, não deixando escapar nenhuma incólume.
Depois da missa, sai à rua uma pequena procissão em torno da igreja e são leiloados os bens obtidos pela equipa durante a manhã.
Fotos: Antero Neto e Rita Lopes (clicar nas imagens para ampliar).
Após o almoço, passou-se à apresentação da obra, nas instalações da Casa Grande. Quero expressar aqui o meu profundo reconhecimento ao alcaide local, António Marcos, pelo entusiasmo e apoio inexcedível, bem como à população de Tó, que compareceu de forma massiva, demonstrando que aqui a cultura não é uma batata. O presidente da Junta disse que a partir daquele dia eu passava a ser considerado um filho da terra. É com muito orgulho e satisfação que como tal me passo a considerar. É uma honra.
Agradeço igualmente a presença e o apoio do sr. Presidente da Câmara Municipal, Francisco Guimarães e da sra. Vereadora da Cultura, Virgínia Vieira. Deixo aqui o meu apreço para ambos, que assim demonstraram a importância que o município atribui às manifestações culturais do concelho.
Deixo igualmente um abraço ao Pimenta de Castro, pela apresentação, à D. Balbina Silva, à Manuela Rodrigues, a Joaquim Bártolo e ao dr. Manuel Bento Fernandes, pelos contributos prestados para a concretização deste livro.
Last, but not least, uma palavra de gratidão para a editora "Lema d'Origem", pela aposta determinada nos autores e na cultura transmontana. Bem haja!
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terça-feira, 26 de novembro de 2013
Fraga da Moura - Tó
Na sequência do estudo que estou a fazer sobre a aldeia de Tó, fui visitar a "Fraga da Moura". Como se deduz do nome, o local está relacionado com algo místico e muito antigo. Fala-se de uma gravura tipo "pegada". Contudo, após inspecção aturada ao megalito, cheguei à mesma conclusão que os arqueólogos que igualmente a visitaram: não se vislumbra nada de concreto. Mas, que deve ter existido, lá isso deve. Daí o topónimo. O étimo "mouro" (moura, mouros) está sempre relacionado com seres sobrenaturais (raiz celta *MRVOS, que significa "morto" ou "sobrenatural"), ou com pedras e água (também se pode explicar a partir da raiz pré-indo-europeia *MOR, que significa "pedra" ou "montão de pedras").
Aparente conjunto de pegadas. Parecem-me resultantes da erosão.
Aparente gravura cruciforme, a encimar um rectângulo. Pode resultar de acção humana.
Desconheço a finalidade desta covinha. No entanto, pareceu-me observar mais algumas ao longo da fraga. Mas, como estavam de tal maneira desgastadas pela erosão, fiquei com dúvidas se o seriam mesmo.
A esta fraga encontra-se associada uma lenda: diz o povo que está lá uma moura encantada a fiar. E que nas noites de lua cheia se pode ouvir o tear. Um dia, virá um príncipe que a desencantará e ficará com o tear, que é feito de ouro.
Segundo me relatou D. Balbina, os miúdos aproveitavam para caçoar uns dos outros. Mandavam os mais novos encostar a cabeça à pedra, para ouvirem o tear e, então, empurravam-lhes a cabeça contra a fraga.
Aparente conjunto de pegadas. Parecem-me resultantes da erosão.
Aparente gravura cruciforme, a encimar um rectângulo. Pode resultar de acção humana.
A "pegada" em causa. Na prática, é uma covinha, com canal de escoamento.
Fotos: Antero Neto.
Desconheço a finalidade desta covinha. No entanto, pareceu-me observar mais algumas ao longo da fraga. Mas, como estavam de tal maneira desgastadas pela erosão, fiquei com dúvidas se o seriam mesmo.
A esta fraga encontra-se associada uma lenda: diz o povo que está lá uma moura encantada a fiar. E que nas noites de lua cheia se pode ouvir o tear. Um dia, virá um príncipe que a desencantará e ficará com o tear, que é feito de ouro.
Segundo me relatou D. Balbina, os miúdos aproveitavam para caçoar uns dos outros. Mandavam os mais novos encostar a cabeça à pedra, para ouvirem o tear e, então, empurravam-lhes a cabeça contra a fraga.
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segunda-feira, 16 de setembro de 2013
CEPIHS 3 - Setembro 2013 (O Farandulo de Tó - proposta de leitura)
Clicar nas fotos para ampliar
Já saiu o n.º 3 da revista "CEPIHS", publicação do Centro de Estudos e Promoção da Investigação Histórica e Social de Trás-os-Montes e Alto Douro. Tive o privilégio de participar com um artigo subordinado ao tema "O Farandulo de Tó (Mogadouro) - uma proposta de leitura", onde procurei interpretar e analisar este ritual de solstício de Inverno. No artigo tentei ainda explicar a origem do topónimo "Tó", bem como fazer uma breve caracterização económica e demográfica da aldeia através dos tempos. Para os interessados na leitura dos trabalhos constantes deste terceiro volume da revista, irá ficar um exemplar disponível na Biblioteca Municipal Trindade Coelho.
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quarta-feira, 17 de julho de 2013
Ervas aromáticas e medicinais
O universo rústico que nos rodeia encerra tesouros que, frequentemente, nos passam completamente despercebidos. Uma dessas riquezas prende-se com a vasta panóplia de ervas aromáticas e medicinais que se podem encontrar nas bermas dos mais singelos caminhos rurais. É um mundo que poucas pessoas conhecem com ciência. Uma dessas pessoas é a D. Balbina, de Tó, que teve a amabilidade de me acompanhar, juntamente com a Manuela Rodrigues e o Pimenta de Castro, numa pequena incursão pelos campos envolventes da aldeia, deixando-me boquiaberto com algumas descobertas. Do resultado dessa exploração se dará conta no número de Outubro da revista "Epicur". Aqui ficam algumas amostras:
"Perpétua das areias", ou "cueiros de nossa senhora". Ou, simplesmente, "caril, porque possui um delicioso aroma ao conhecido ingrediente culinário.
"Trovisco". Esta planta serve como uma espécie de regulador para o agricultor. Se deitar as bagas cedo, então, a sementeira também deve ser feita cedo (e vice-versa).
O agora muito famoso "goji", das milagrosas bagas.
"Absinto". Da maceração desta planta extrai-se a famosa bebida espirituosa. Possui muitas propriedades medicinais, mas deve ser utilizada com moderação.
"Perpétua das areias", ou "cueiros de nossa senhora". Ou, simplesmente, "caril, porque possui um delicioso aroma ao conhecido ingrediente culinário.
"Trovisco". Esta planta serve como uma espécie de regulador para o agricultor. Se deitar as bagas cedo, então, a sementeira também deve ser feita cedo (e vice-versa).
O agora muito famoso "goji", das milagrosas bagas.
"Absinto". Da maceração desta planta extrai-se a famosa bebida espirituosa. Possui muitas propriedades medicinais, mas deve ser utilizada com moderação.
Fotos: Antero Neto.
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sábado, 15 de junho de 2013
Malhadeira
Fotos: Antero Neto.
Por mero acaso, ditado por deslocação de serviço ao campo (em mais um mergulho profundo na idiossincrasia rural, em que, felizmente, o tipo que empunhava a machada era o mais calmo do grupo), descobri estas preciosidades ao abandono (aldeia de Valverde).
Neste conjunto de fotos, pertença de Joaquim Bártolo, tiradas nas eiras de Tó, pode observar-se a malhadeira em acção. As fotos terão cerca de 40 a 50 anos e representam uma fase de transição entre o trabalho puramente manual e animal e o recurso aos meios mecanizados que haveriam de marcar o panorama rústico até ao início da década de 80, do século passado, altura que ficou marcada pelo aparecimento massivo das ceifeiras-debulhadoras, que haveriam de modificar a paisagem cerealífera do Nordeste, até à quase extinção desta actividade, motivada pelas políticas ruinosas dos sucessivos governos portugueses, que muito se têm empenhado na aniquilação da vida económica transmontana...
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segunda-feira, 25 de março de 2013
Rixa e justiça no ano de 1500 em Vila de Ala
Vila de Ala. Foto: www.duartebelo.com
João Álvares, sapateiro, morador em Vila de Ala, termo de Mogadouro, "enviou dizer que, em um dia de Julho do ano passado de 1.500, estando ele no largo da vila de Ala, fazendo uma parede com um pedreiro, junto da igreja de S.ta Maria, ouvira um arruído e chamar por Aqui del-rei. E tomara uma lança e capa no braço e fora correndo saber que era e achara junto da igreja vir um Pero Sardinha, morador na aldeia de Tó, termo da Bemposta, que dizia trazer poder do juiz da vila para prender um Afonso Coiraça, para o que trazia certos homens consigo. E quando assim achara o Pedro Sardinha com os ditos homens andar revoltos, no [audro] da igreja, para prenderem o Afonso Coiraça, não sabendo o suplicante que ele trazia o dito carrego nem o conhecendo por juiz porque não era do termo da vila de Mogadouro, onde queria prender o Afonso Coiraça, em maneira que fugira e se fora, andando outros em companhia do suplicante que o ajudara. E o Pero Sardinha dissera que saíra ferido do arruído e que não sabia quem o ferira. E por elo o suplicante se amorara. E andando amorado, Pero Sardinha lhe perdoara por um público instrumento de perdão, feito e assinado por Martim Alvares, tabelião na vila da Bemposta, a 1 de Janeiro de 1.500. Pedindo o suplicante, el-rei vendo o que dizer enviou, se assim era e aí mais não havia, visto o perdão da parte e um parece com o seu passe, lhe perdoou, contanto pagasse 1.000 rs. para a Piedade. João Afonso a fez." (fonte: ANTT).
sexta-feira, 8 de março de 2013
O julgado de Tó (Thó)
Continuando a temática histórica e dos julgados, vamos dar conhecimento do "julgado de Tó (Thó)". Por cortesia do Dr. Manuel Bento Fernandes, que muito amavelmente me fez chegar parte de uma magnífico trabalho que está a desenvolver sobre a história do julgado de Bemposta, fica aqui o registo da existência de um julgado em Tó.
Segundo o referido autor/investigador, na divisão administrativa de 23/12/1875, a configuração dos julgados sofreu alterações, uma vez que cada freguesia não podia distar mais de 15 km do tribunal. Assim, em conformidade com essa regra e atendendo à centralidade das localidades do concelho, foram criados dois julgados: um em Mogadouro e outro em Tó (ambos pertencentes à comarca de Mogadouro).
Segundo o referido autor/investigador, na divisão administrativa de 23/12/1875, a configuração dos julgados sofreu alterações, uma vez que cada freguesia não podia distar mais de 15 km do tribunal. Assim, em conformidade com essa regra e atendendo à centralidade das localidades do concelho, foram criados dois julgados: um em Mogadouro e outro em Tó (ambos pertencentes à comarca de Mogadouro).
Clicar na imagem para ampliar.
Portão rústico em Tó (foto: Antero Neto).
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
O ancestral fabrico da telha
Aquando da última viagem a Tó, estive junto às ruínas dos fornos telheiros locais, no sítio da Laganhosa. Um deles ainda se encontra em perfeitas condições de recuperação, à semelhança daquilo que foi feito em Bruçó.
Quanto ao método de fabrico da telha nestes fornos ancestrais, vou socorrer-me da descrição feita por Joaquim Bártolo (que pode ser consultada na íntegra aqui):
"O fabrico da telha era efectuado no Verão. O barro para o efeito era colhido nuns barreiros existentes junto ao cruzamento de Tó e em outros locais. Era levado para a Laganhosa, onde, em terreno público havia uns barreiros, uma espécie de piscinas, cavados na terra. O barro era ali depositado e depois de amolecido durante alguns dias era pisado com juntas de vacas, até ficar uma pasta consistente e moldável.
Era então que entravam em acção os "artistas": num atelier improvisado (buraco no chão) havia uma prancha inclinada aí a 45º. Sobre ela era colocada uma forma em ferro com a parte exterior da grossura a que a telha havia de ficar; pulverizava-se essa prancha com cinza para o barro não agarrar; colocado ali o barro era estendido por toda a forma com uma espécie de rolo. De seguida, arrastava-se, sem levantar, para cima do "galapo" (artefacto de madeira com um cabo e arredondado na forma da telha) que era transportado normalmente por raparigas, para um espécie de eira, onde outro "artista" depositava a telha e retirava o galapo e onde a telha ficava a secar.
Chamava-se à tarefa das raparigas "andar ao galapo".
Depois de alguns dias a secar, a telha era levada para os fornos onde era depositada, ao alto e em camadas. Cheio o forno, era então ateado o fogo, queimando-se enormes quantidades de lenha, previamente transportada para o local.
Depois de cozida e arrefecida era desenfornada para se repetir a mesma tarefa.
Não havia tempo a perder, pois este trabalho só podia ser feito no Verão." - Joaquim Bártolo.
De referir que estive recentemente com um "galapo" na mão, em Bruçó, de que não registei imagens, mas que vou tentar fotografar em próxima ocasião.
Quanto ao método de fabrico da telha nestes fornos ancestrais, vou socorrer-me da descrição feita por Joaquim Bártolo (que pode ser consultada na íntegra aqui):
"O fabrico da telha era efectuado no Verão. O barro para o efeito era colhido nuns barreiros existentes junto ao cruzamento de Tó e em outros locais. Era levado para a Laganhosa, onde, em terreno público havia uns barreiros, uma espécie de piscinas, cavados na terra. O barro era ali depositado e depois de amolecido durante alguns dias era pisado com juntas de vacas, até ficar uma pasta consistente e moldável.
Era então que entravam em acção os "artistas": num atelier improvisado (buraco no chão) havia uma prancha inclinada aí a 45º. Sobre ela era colocada uma forma em ferro com a parte exterior da grossura a que a telha havia de ficar; pulverizava-se essa prancha com cinza para o barro não agarrar; colocado ali o barro era estendido por toda a forma com uma espécie de rolo. De seguida, arrastava-se, sem levantar, para cima do "galapo" (artefacto de madeira com um cabo e arredondado na forma da telha) que era transportado normalmente por raparigas, para um espécie de eira, onde outro "artista" depositava a telha e retirava o galapo e onde a telha ficava a secar.
Chamava-se à tarefa das raparigas "andar ao galapo".
Depois de alguns dias a secar, a telha era levada para os fornos onde era depositada, ao alto e em camadas. Cheio o forno, era então ateado o fogo, queimando-se enormes quantidades de lenha, previamente transportada para o local.
Depois de cozida e arrefecida era desenfornada para se repetir a mesma tarefa.
Não havia tempo a perder, pois este trabalho só podia ser feito no Verão." - Joaquim Bártolo.
Imagens: fornos da telha de Bruçó (fotos: Antero Neto).
Estes fornos telheiros são muito antigos, remontando o seu surgimento muito provavelmente à época da ocupação romana. Na carta de foral dada a Lagoaça por D. Dinis surge uma menção aos fornos telheiros de Bruçó, como marca de referência para a delimitação entre os respectivos termos. Não eram estes que aqui mostro, pelo que depreendo que terão existido outros mais antigos, mas cujos vestígios apenas perduram na toponímia local.De referir que estive recentemente com um "galapo" na mão, em Bruçó, de que não registei imagens, mas que vou tentar fotografar em próxima ocasião.
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domingo, 28 de outubro de 2012
Lagar romano em Tó
Há muito que o amigo José Eiras, lá de Mirandela, me tinha sugerido uma visita ao lugar da "Manuela", no termo da freguesia de Tó. Curiosamente, foi uma Manuela, no caso a Manuela Rodrigues, que teve um papel importante na visita. Contactou a D. Balbina Silva que, com extrema simpatia e disponibilidade, teve paciência para nos conduzir ao local desejado: o lagar romano, cavado na rocha.
Iniciámos o percurso pedestre junto à entrada da Quinta das Xaras, pertença da família Moraes Machado.
Mais abaixo, passámos por outra quinta, cujo nome me escapou, mas com dois belos pilares a demarcar a entrada.
O percurso foi longo, mas divertido. As preocupações da D. Balbina revelaram-se infundadas: os miúdos nunca se negaram.
Deu para coleccionar pedras de diferentes formatos e cores e até para tirar o retrato ao sumagre - planta que chegou a ser uma das principais fontes de rendimento do vale do Douro (ocupando lugar cimeiro nas exportações para o norte da Europa - destinava-se ao curtimento das peles. Localmente, também servia para tingir lã).
Aspectos pitorescos da azáfama que se aproxima na safra da azeitona.
E, eis o lagar cavado na rocha. Lá está, num plano superior o espaço onde eram esmagadas as uvas (calcatorium); o buraco de escoamento e, num plano inferior, o pio (lacus).
Devido ao reduzido tamanho do pio, o mosto não fermentava no local. Era levado, após a pisa, para a adega, onde fazia a fermentação alcoólica. Alguns lagares possuíam ainda o equipamento para prensar as peles e os engaços (torcularium). Neste caso, desconhece-se se ali existiu mais alguma coisa. Saliente-se que em Tó, no centro da aldeia, existe um lagar equipado com prensa de fuso (vide post anterior sobre Tó). Esta técnica de prensagem remonta igualmente à época romana. Os lagares cavados na rocha, na maior parte dos casos, encontram-se localizados onde em tempos coevos se cultivou a vinha, mas que, entretanto, deixou de existir. Na descida para o local, observaram-se sobretudo oliveiras, mas ainda foi possível vislumbrar, aqui e ali, um ou outro bacelo.
Manuela Rodrigues, Balbina Silva, Antero Neto (foto: Ritinha).
Mais uma tarde para recordar na aldeia de Tó. A Manuela Rodrigues, minha antiga colega de escola, após vários anos na Holanda, recuperou a casa dos avós em Tó e instalou lá uma unidade de Alojamento Local. A D. Balbina Silva é a maior especialista local em ervas aromáticas (que comercializa nos certames dedicados ao artesanato) e é igualmente uma apaixonada pelo património e história local. Ficou prometida nova visita para desvendar outros pontos de interesse toleses.
Iniciámos o percurso pedestre junto à entrada da Quinta das Xaras, pertença da família Moraes Machado.
Mais abaixo, passámos por outra quinta, cujo nome me escapou, mas com dois belos pilares a demarcar a entrada.
O percurso foi longo, mas divertido. As preocupações da D. Balbina revelaram-se infundadas: os miúdos nunca se negaram.
Deu para coleccionar pedras de diferentes formatos e cores e até para tirar o retrato ao sumagre - planta que chegou a ser uma das principais fontes de rendimento do vale do Douro (ocupando lugar cimeiro nas exportações para o norte da Europa - destinava-se ao curtimento das peles. Localmente, também servia para tingir lã).
Aspectos pitorescos da azáfama que se aproxima na safra da azeitona.
E, eis o lagar cavado na rocha. Lá está, num plano superior o espaço onde eram esmagadas as uvas (calcatorium); o buraco de escoamento e, num plano inferior, o pio (lacus).
Devido ao reduzido tamanho do pio, o mosto não fermentava no local. Era levado, após a pisa, para a adega, onde fazia a fermentação alcoólica. Alguns lagares possuíam ainda o equipamento para prensar as peles e os engaços (torcularium). Neste caso, desconhece-se se ali existiu mais alguma coisa. Saliente-se que em Tó, no centro da aldeia, existe um lagar equipado com prensa de fuso (vide post anterior sobre Tó). Esta técnica de prensagem remonta igualmente à época romana. Os lagares cavados na rocha, na maior parte dos casos, encontram-se localizados onde em tempos coevos se cultivou a vinha, mas que, entretanto, deixou de existir. Na descida para o local, observaram-se sobretudo oliveiras, mas ainda foi possível vislumbrar, aqui e ali, um ou outro bacelo.
Manuela Rodrigues, Balbina Silva, Antero Neto (foto: Ritinha).
Mais uma tarde para recordar na aldeia de Tó. A Manuela Rodrigues, minha antiga colega de escola, após vários anos na Holanda, recuperou a casa dos avós em Tó e instalou lá uma unidade de Alojamento Local. A D. Balbina Silva é a maior especialista local em ervas aromáticas (que comercializa nos certames dedicados ao artesanato) e é igualmente uma apaixonada pelo património e história local. Ficou prometida nova visita para desvendar outros pontos de interesse toleses.
Fotos: Antero Neto.
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terça-feira, 18 de setembro de 2012
Astérix, Soutelo e Tó
Vem este post a propósito de uma conversa, ocasionada por mais um adiamento de audiência de julgamento. Fui até Torre de Moncorvo, em deslocação profissional. Adiada a sessão, decidi demorar-me por lá algum tempo, em convívio com amigos locais. Já ali dei aulas, na Escola Secundária Dr. Ramiro Salgado (por duas vezes), e nutro natural simpatia pela terra.
Breve visita ao Museu do Ferro e foi tempo de colocar a conversa em dia com o Nelson Campos (Rebanda). Verdadeiro "Mestre", a fazer-me lembrar o saudoso Prof. Orlando de Carvalho, o Nelson é um poço de conhecimento que facilmente cativa o ouvinte.
A propósito de uma citação que Paulo Alexandre Loução fez de um seu artigo escrito na revista "Forum Terras de Mogadouro" (n.º 2, Dez. 2001), a conversa acabou por centrar-se no famoso "Bi Tó Rô" - festa de Soutelo.
E o que é que a castiça BD belga e a aldeia de Tó têm que ver com a questão? Já lá vamos...
O assunto é complexo e comprido. O artigo em causa explana de forma clara a teoria que o Nelson tem sobre a origem da festa e da respectiva denominação. Sintetizando, de forma simplista (e quase grosseira), terá existido em tempos, no vale de Aritia (Valaritia/Valariça/Vilariça?), perto de Nemi, em Roma, um templo dedicado a Diana (deusa da caça e dos bosques), situado no meio de um bosque que possuía uma árvore (carvalho) em que crescia o ramo dourado, que era o visco. O visco e o carvalho eram sagrados para os celtas. O visco só podia ser colhido por um sacerdote, munido de uma pequena foice em ouro (os leitores do Astérix já identificaram algo?).
Essa árvore era guardada por um "mordomo" que, durante um ano a protegia dos intrusos. Esse mordomo só podia ser deposto em luta mortal por outro pretendente. Esse pretendente era vitoriado: "vitória ao mordomo" (citando o Nelson no artigo em causa: "se o V corresponde ao B na dicção popular, o último "ó" ou "ô" corresponde ao pronome demonstrativo "o" (que no português-padrão actual seria precedido da preposição "a" - "ao"). O acentuar das sílabas tónicas, deixando cair a átona, produziu, por apócope, a palavra "Bitórô" ou "Bitóró" [...]").
Conhecida a teoria do nome da festa de Soutelo, resta acrescentar que o ritual de solstício da aldeia de Tó encaixa que nem uma luva nesta descrição, pois estão lá a figura do Mordomo e o Ramo que é defendido das investidas do Carêto, pelo Moço (sendo que, no ano seguinte os papéis serão renovados, havendo sempre a mudança do Mordomo, tal como na mitologia romana e celta!). Interessante...
Breve visita ao Museu do Ferro e foi tempo de colocar a conversa em dia com o Nelson Campos (Rebanda). Verdadeiro "Mestre", a fazer-me lembrar o saudoso Prof. Orlando de Carvalho, o Nelson é um poço de conhecimento que facilmente cativa o ouvinte.
A propósito de uma citação que Paulo Alexandre Loução fez de um seu artigo escrito na revista "Forum Terras de Mogadouro" (n.º 2, Dez. 2001), a conversa acabou por centrar-se no famoso "Bi Tó Rô" - festa de Soutelo.
E o que é que a castiça BD belga e a aldeia de Tó têm que ver com a questão? Já lá vamos...
O assunto é complexo e comprido. O artigo em causa explana de forma clara a teoria que o Nelson tem sobre a origem da festa e da respectiva denominação. Sintetizando, de forma simplista (e quase grosseira), terá existido em tempos, no vale de Aritia (Valaritia/Valariça/Vilariça?), perto de Nemi, em Roma, um templo dedicado a Diana (deusa da caça e dos bosques), situado no meio de um bosque que possuía uma árvore (carvalho) em que crescia o ramo dourado, que era o visco. O visco e o carvalho eram sagrados para os celtas. O visco só podia ser colhido por um sacerdote, munido de uma pequena foice em ouro (os leitores do Astérix já identificaram algo?).
Essa árvore era guardada por um "mordomo" que, durante um ano a protegia dos intrusos. Esse mordomo só podia ser deposto em luta mortal por outro pretendente. Esse pretendente era vitoriado: "vitória ao mordomo" (citando o Nelson no artigo em causa: "se o V corresponde ao B na dicção popular, o último "ó" ou "ô" corresponde ao pronome demonstrativo "o" (que no português-padrão actual seria precedido da preposição "a" - "ao"). O acentuar das sílabas tónicas, deixando cair a átona, produziu, por apócope, a palavra "Bitórô" ou "Bitóró" [...]").
A Sécia a segurar o ramo, com o Moço em posição de defesa (aldeia de Tó) - foto: Antero Neto.
Conhecida a teoria do nome da festa de Soutelo, resta acrescentar que o ritual de solstício da aldeia de Tó encaixa que nem uma luva nesta descrição, pois estão lá a figura do Mordomo e o Ramo que é defendido das investidas do Carêto, pelo Moço (sendo que, no ano seguinte os papéis serão renovados, havendo sempre a mudança do Mordomo, tal como na mitologia romana e celta!). Interessante...
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