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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Saldanha romana

Em visita recente a Saldanha, enquadrada na campanha eleitoral em curso, deparei-me com uma estela funerária romana incrustada na parede da capela de Santa Marinha. Decidi regressar ao local com mais tempo e melhor luz para uma análise pormenorizada. E qual o meu espanto quando ao invés de uma, me deparei com... seis (!!!). Três delas têm as inscrições à vista e já estão estudadas pelos arqueólogos. As restantes estão de tal forma embutidas na construção, que apenas podemos presumir que o são, atendendo às dimensões, tonalidade e qualidade do material que é constatável a olho nu.
Sobre Saldanha e os respectivos achados romanos, já tinha falado aqui e aqui. Os arqueólogos mencionam uma grande necrópole, cuja dimensão se pode atestar pela quantidade abundante de estelas encontradas no local (algumas partidas, outras desaparecidas e outras guardadas na sala museu de Mogadouro). Esta realidade permite-nos especular sobre a existência de um (ou mais do que um) habitat romano relevante na zona da actual aldeia de Saldanha. Quanto à capela de Santa Marinha, a sua construção já foi de tal modo adulterada que será extremamente difícil tentar situar cronologicamente a sua origem (sobre a padroeira da capela, veja-se mais informação aqui). No interior conserva ainda um arco de volta quase perfeita, que aponta para uma origem medieval tardia. Mas, isto são apenas suposições...
Estela localizada no cunhal do lado esquerdo da porta de entrada, com a seguinte inscrição: D M S / CORNELIAE / FLAVINAE / UXORI / ANNORUM XXXV / M (fonte: Portal do Arqueólogo). Presumo que seja dedicada à esposa, chamada Flavínia, falecida com 35 anos de idade.
Estela situada no cunhal do lado direito da porta da entrada, com a seguinte inscrição: AM / NILLAE / ANNO L / M SVLP / FLAVO / UXORI SAN / TISSIMAE (fonte: Portal do Arqueólogo). Igualmente dedicada à esposa, falecida com 50 anos de idade.
Estela situada no interior da capela, na base esquerda do arco, com a seguinte inscrição: CAPITO / MARITVS / P (fonte: Portal do Arqueólogo).
 Cunhal do lado esquerdo, onde são observáveis, além da estela já descrita, mais três pedras que tudo aponta para que sejam igualmente estelas, atento o material e a forma que apresentam. Os arqueólogos mencionam apenas duas, mas são visíveis três.
Fotos: Antero Neto (clicar nas imagens para ampliar).
Quero deixar aqui o meu agradecimento ao Victor Valdemar Lopes,cujo contributo e presença foi importante para a possibilidade de observação integral das estelas, e ao sr. Domingos, que facultou a entrada no interior do templo.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ainda a ara votiva de Saldanha

Aquando da visita a Saldanha, falei aqui da ara votiva ali encontrada. Hoje, depois de ter adquirido a magnífica obra de Maria Olinda Santana sobre a correspondência trocada entre António Maria Mourinho e Santos Júnior, fiquei a conhecer a interessante perspectiva do sacerdote e ilustre arqueólogo mirandês sobre a mesma.
Em missiva datada de 30-09-1966, o padre Mourinho, entre outras coisas, citando JL Vasconcellos, diz que a palavra "Depulsor" (adjectivo qualificativo do deus Júpiter) significa "o que afasta os males". A essa característica, digo eu, não será totalmente alheia a profusão ilustrativa do teixo estilizado na parte superior da lápide.
A leitura que o insigne mirandês fez da inscrição constante da ara é a seguinte:
"I(ovi) D(ptimo) M(aximo) D(epulsori)
DOMITIUS
PEREGRINUS
VET.(eranus) LEG(ionis) VII
GEM(inae) P(iae) F(elicis)
V(otum) S(olvit) L(ibens) M(erito)"
Mas, o mais curioso, é que em missiva posterior, de 13-03-1967, o pároco escreve o seguinte:
"Se por acaso utilizou a minha carta para publicação era favor acrescentar naquele VET...i de VET., que não deve ser VETERANUS, mas VET(ONIS) nome étnico que costuma acompanhar PEREGRINUS, mesmo para designar os estrangeiros aceites no exército romano a partir do império(...)"
Esta versão levanta algumas questões interessantes, pois, tal como refiro no meu livro sobre Bruçó, há autores espanhóis que colocam uma parte do nosso concelho em território dos Vetões (alicerçados nos achados arqueológicos de Vila dos Sinos). É uma discussão que, quanto a mim, permanece em aberto.