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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Vale de Porco

Motivado pela procura de um painel de gravuras rupestres (cruciformes), no sítio de Pena Curva, fui até Vale de Porco. O amigo Luís Carlos guiou-me até ao local, mas nem cinco pares de olhos conseguiram dar com a inscrição. Fica para uma próxima tentativa.
Na volta, parámos na aldeia, onde o ex-alcaide Dulcíneo Rodrigues e ti Valdemar nos mostraram uma interessante inscrição de uma laje fúnebre do séc. XVII, localizada no interior do templo cristão. Não conseguimos decifrá-la na íntegra, mas percebemos que se trata da sepultura de um tal João Pereira, que terá sido, eventualmente, um figurão local.
No muro que cerca o recinto da igreja, encontra-se uma outra pedra escrita que, segundo informou ti Valdemar, serviu de suporte a um cruzeiro de madeira que assinalava a morte de alguém, ocorrida no séc. XIX.
Desta aldeia (da qual ainda descendo pela via materna), sabemos que em 1530 era povoada por 30 moradores (mais as esposas e crianças, em número indeterminado); em 1758 tinha 140 almas (50 vezinhos); em 1775, habitavam-na 46 moradores (mais os outros), e em 1796 paravam por lá 117 habitantes.
Quanto ao exótico topónimo, reza a lenda que os habitantes da primitiva povoação, vejam bem a novidade, terão sido assolados por uma praga e obrigados a mudar de sítio (onde é que eu já ouvi isto...). E para escolher o local da futura aldeia, tiveram a peregrina ideia de soltar uma vara. Seguiram os porcos até ao local onde aqueles pararam. Como ficaram por ali, o povo também armou lá a tenda e assim passou o aglomerado populacional a ser conhecido por Vale de Porco (é mais ou menos isto). Como de lendas não se alimenta a toponímia, quer-me parecer que a origem é bem mais interessante e não tem nada a ver com o saboroso animal que abastece os fumeiros locais. Para já, ainda ando a explorar hipóteses, mas a leitura das respostas do padre João Fernandes ao inquérito de 1758 vem corroborar uma das pistas por mim seguidas. A ver vamos...
Fotos: Antero Neto
E quanto a figuras importantes, devo aqui uma desculpa ao Dulcíneo, pois, ao contrário da informação que lhe dei, o cura do séc. XVIII refere um tal Gregoro (sic) Fernandes, que terá sido um grande filósofo, teólogo, matemático e canonista. Já busquei mais informações sobre ele, mas ainda não consegui nada.
Uma última nota para a referência à antiquíssima existência de minas de prata, num local a que chamam "Prado de Rei", e que fica subjacente à fraga de Pena Curva.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Chocalheiro de Vale de Porco

Como era a única figura solsticial que me faltava observar in loco, este ano resolvi passar a manhã natalícia em Vale de Porco para poder apreciar o "chocalheiro". Esta aldeia, tal como muitas outras, é vítima da crescente desertificação. Quase não se vê vivalma. Questionei uns homens que andavam de redor do mata-porco e informaram-me que já por ali tinha passado. Dei a volta à aldeia e... nada! Já tinha decidido regressar a Mogadouro, quando me deparei com uma dupla de chocalheiros.
Aqui, executam a dança ritual de sacudir os chocalhos, enquanto saltam e emitem sons guturais.
A indumentária é tal e qual como a que Santos Júnior descreveu na caracterização que nos legou do carêto de Valverde. Encontram-se lá todos os elementos integradores do espírito solsticial: a serpente, os cornos, a cor vermelha e os chocalhos (que, como já aqui foi dito, possuem carácter apotropaico, isto é, servem para afastar os maus espíritos da comunidade).
À despedida, tive oportunidade de trocar dois dedos de conversa com o amigo Valdemar, que me transmitiu um pouco da história e me contou que quando a aldeia era pujante, o chocalheiro perseguia os mais novos e obrigava-os a refugiarem-se em casa. A rapaziada persistia e voltava a cirandar atrás dele. A localidade enchia-se de barulho e alegria. Conta-me minha mãe que minha avó materna, que era natural de Vale de Porco, apanhou medo ao chocalheiro em criança e, mesmo de adulta, já em Bruçó, recusava-se a encarar de frente com os "Velhos", mandando meu avô a dar-lhes a esmola.
Aqui, o "Chocalheiro" também dá a volta ao povo, a pedir esmola para o Menino.
A tradição corre risco de desaparecer. Tem-lhe valido a perseverança de Dulcíneo Rodrigues, o alcaide local, que tem batalhado pela sua manutenção e divulgação. No futuro, e com a agregação da freguesia de Vale de Porco à de Mogadouro, vamos ver o que sucederá a esta festividade milenar...
À entrada do termo, o autarca mandou erigir um pequeno monumento à figura solsticial, mas,
como se pode observar, o fanatismo religioso e a proverbial estupidez humana não dão para mais...
Fotos: Antero Neto.