quarta-feira, 27 de maio de 2015

Mogadouro, há 40 anos atrás...

Da esquerda para a direita: eu, Tó Mané Sampaio, Manel, Tareco e Afonso.
Há sensivelmente quarenta anos atrás, juntamente com o meu irmão Manel, o Tó Mané Sampaio, o Tareco e o Manuel Afonso, brincávamos aos "cowboys" no terreiro adjacente ao castelo de Mogadouro. Vivia-se o início do chamado "Verão Quente de 75". É caso para dizer que um grupo de insubmissos tentava tomar de assalto o castelo, perante a resistência dos reaccionários... A foto foi tirada pelo saudoso "Foster". Era interessante revelar o espólio desse fotógrafo errante que percorria as ruas da vila, sempre bem disposto...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Castelo de Mogadouro - classificação

Clicar na imagem para ampliar.
Fonte: DGPC.

sábado, 16 de maio de 2015

O "Lagarico" e o Museu Rural de Urrós

"Urrolus" no séc. XIII e "Hurroos" no séc. XIV, Urrós pertenceu ao extinto concelho de Algoso até à reforma administrativa do séc. XIX. Depois, passou a integrar o actual concelho de Mogadouro. Esta vetusta aldeia encerra no seu território um dos mais vastos patrimónios arqueológicos da região. Só por isso, merece bem umas quantas visitas. Além do mais, o casco urbano é bonito e encontra-se razoavelmente preservado. Já perdi a conta às minhas incursões arqueológicas, mas ainda não vi tudo, pelo que outras se seguirão.
Desta feita, fui conhecer o sítio do "Lagarico", referenciado no chamado "Endovélico" e a que o meu amigo Artur Barrios já me tinha prometido conduzir. A viagem foi quase acrobática, pois foi feita em cima do pára-lamas de um Landini 6500. O que, em terreno extremamente sinuoso e inclinado não é tarefa para todos... Mas, valeu bem a pena, pois permitiu-me descobrir o terceiro lagar escavado na rocha (depois do de Tó e do de Algosinho). O local é bem próximo do caudal do Douro e situa-se em zona que outrora foi cultivada com vinha. Actualmente, campeia por ali uma vasta e densa mata de belíssimos zimbros.
 Vista deslumbrante do sítio...


 Pormenores do lagar, que apenas possui o chamado "calcatorium", sem o "lacus", embora haja alguma pedra solta no local, que indicia a eventual construção de estrutura inferior de apoio. Tal como nos que visitei anteriormente, a cronologia é indeterminada por falta de elementos de suporte que permitam indicar uma época definida.
 O meu guia, cuja amizade muito me honra e apraz.
Uma vez regressados à aldeia, encontrámos o alcaide local, Belarmino Pinto, que fez questão de me mostrar o Museu Rural de Urrós, instalado nesta bonita casa, logo por detrás da torre sineira que servia para tocar a rebate sempre que "pássaro estranho entrava na gaiola", no feliz dizer de um investigador. Ou seja, sempre que algum passarão de fora rondava uma menina lá da aldeia, este sino servia para dar o sinal e obrigar o atrevido a "pagar o vinho".
 Duas estelas funerárias encontradas por um habitante local quando agricultava um terreno seu, que espero que o Armando Redentor estude condignamente para depois nos fornecer a sua avisada leitura.
 Pedra da parede do Museu, que foi certamente reutilizada, pois são bem visíveis três cruzes, que indiciam que fez parte da padieira de alguma porta, indicando que ali habitava cristão-novo.
Curioso e rude artefacto que servia para desmamar os vitelos. O conceito era assaz violento, como o próprio Belarmino me referiu.

O meu grande bem haja aos meus dois guias nesta manhã esplêndida que passei em terra de roleses.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Aborto Ortográfico

E porque hoje, supostamente, se torna obrigatório escrever ao abrigo do (des) acordo ortográfico, aqui fica a minha posição:

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Azinhoso, Alardo e "preparos"

Aqui há dias, em amena cavaqueira com o amigo Daniel, do Azinhoso, questionei-o acerca da famosa frase "aos do Azinhoso vai-se-lhes tudo em preparos" (que outrora os levava aos arames, mas que agora já levam na brincadeira). Remeteu-me para uma conversa com o falecido professor Frutuoso, em que este lhe teria dado uma explicação assente em episódio histórico, embora não me soubesse definir bem os contornos concretos do caso.

A partir daqui, permiti-me eu especular: será que tem a ver com o famoso episódio do "Alardo da Vilariça"? Como é sabido - e isso é-nos referido por Joaquim de Santa Rosa Viterbo ("Achando-se El-Rei D. João I, no seu Arrayal da Vallariça aos 15 de Maio de 1386, bem perto do Azinhoso", in "Elucidário...") - a famosa parada militar teve lugar por estas paragens. E como o Alardo consiste precisamente num exercício militar, onde se exibem forças e se fazem os "preparos" para a guerra, poderá, digo eu, vir daí a origem deste curioso dito. Porém, repito, isto é pura especulação da minha parte. Que não se tome isto como fonte credível para o que quer que seja...

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Mogadouro em 1762



Aqui está um retrato da vila de Mogadouro, tal como foi vista pelo invasor espanhol de 1762, cujas tropas eram comandadas pelo Marquês de Sarria, na sequência da ofensiva hispano-gaulesa lançada contra a aliança luso-britânica, iniciada em 4 de Maio daquele ano, precisamente pela região de Trás-os-Montes. É curiosa a designação usada pelo desenhador do exército espanhol para identificar o castelo local: "Palacio llamado vulgarmente Castillo" (fonte: "Cartografia Histórica Portuguesa").

domingo, 26 de abril de 2015

Comemorações do 25 de Abril em Mogadouro

Como vem sendo hábito, decorreram neste sábado as comemorações do 41.º aniversário do 25 de Abril. A efeméride esteve a cargo da Assembleia Municipal de Mogadouro e dividiu-se em duas partes. A primeira teve lugar na noite de 24, com um espectáculo musical em que as oficinas de música do Município de Mogadouro e o convidado Victor Lopes tocaram diversos temas do falecido Zeca Afonso. No dia 25, propriamente dito, houve uma marcha pela Liberdade ao longo das ruas da vila, hastear da bandeira nos Paços do Concelho e sessão solene com leitura de textos por parte da ACEITTA e as habituais intervenções dos oradores convidados.
 Aspecto do concerto do dia 24.
 Paços do concelho, com revista à guarda de honra do corpo activo dos bombeiros voluntários.
Mesa solene (Teresa Cordeiro, Francisco Guimarães, Ilídio Vaz e Antero Neto) e actores da ACEITTA.
Fotografias da autoria de Francisco Pinto.

Este ano, coube-me a honra de discursar em representação da Mesa da Assembleia, por delegação do Presidente da mesma, Ilídio Granjo Vaz. Eis o meu discurso:

"Ex.mo Senhor... (seguem-se os cumprimentos protocolares).

É com grande honra que hoje me dirijo a esta plateia, a convite do senhor Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Mogadouro, a quem desde já, agradeço a oportunidade.
Quando fui convidado, preocupei-me em rever os discursos que em anos anteriores tinha proferido neste palanque. E quando os li, verifiquei que se mantinham perfeitamente actuais. Nada mudou de então para cá. Infelizmente. Mas, depois reflecti no que ali tinha escrito, nomeadamente na descrição do estado horrífico a que chegou a nação e pensei: mas, se eu fui militante do Partido Socialista durante vinte anos e agora estou aqui em representação do Partido Social Democrata e foram precisamente estes dois partidos políticos os principais responsáveis pelo estado actual da situação do nosso país, que sentido faria estar aqui a descrevê-lo? Por isso, não será esse o rumo da minha intervenção.
Aproveito ainda esta oportunidade, e depois de ter escutado os belos textos aqui lidos pelos actores da ACEITTA, para deixar uma sugestão aos responsáveis máximos da Câmara Municipal e da Assembleia Municipal: que promovam um trabalho de recolha de depoimentos de quem vivenciou o 25 de Abril no concelho de Mogadouro e reúnam esses testemunhos em livro. Seria um documento de trabalho riquíssimo para utilizar em futuras edições comemorativas desta efeméride.

Feito este pequeno intróito, passo a ler-vos as breves palavras que escrevi para esta ocasião:

25 de Abril - A IMPORTÂNCIA DA MEMÓRIA

 Comemoramos hoje e aqui o 41.º aniversário da revolução de Abril que nos escancarou as portas da democracia, colocando fim a um período ditatorial que causticou o país durante mais de 40 anos. Contudo, peço-vos que não encareis esta comemoração como "mais uma". Mais uma cerimónia aborrecida, que temos que suportar por força da posição institucional que cada um de nós ocupa. Uma cerimónia onde vamos debitar, ou ouvir debitar, mais e mais banalidades acerca da palavra "liberdade".
Não! Esta comemoração é importante! E assume tanto mais relevo, porquanto atravessamos uma conjuntura de grave crise! E são precisamente as condições a que nos conduziu essa crise que nos impõem uma séria e aturada reflexão acerca da real importância e acutilância do verdadeiro significado de "Abril".
Daí, o título a que subordinei esta minha curta intervenção: a importância da memória! Não é segredo para ninguém que a crise não é exclusivamente do foro económico. É igualmente, e sobretudo, de valores! E o Povo não é surdo nem cego. Começa a agitar-se no seu âmago! Começa a questionar-se se terá valido a pena esta revolução de Abril! Aqui e ali, começamos a ouvir entoar sérias loas ao regime que Abril depôs!
Por essa razão, torna-se imperativo dar ouvidos ao Povo! Tomar-lhe o pulso! Porque , ao contrário do que sempre nos quiseram fazer crer, Portugal não é um país de brandos costumes! E se a memória de alguns é curta, permitam-me então que faça aqui uma incursão telegráfica, mas necessária, pelos fólios da História do séc. XX português. Podeis pensar que vou invocar eras longínquas. Desenganai-vos. Vou-vos falar de factos que este suposto país de brandos costumes viveu há menos de 100 anos! Permiti-me que vos recorde que durante a chamada Primeira República, que vigorou entre 1910 - data da implantação do regime republicano - e 1926 - data da implantação da ditadura, estima-se que morreram milhares de portugueses em consequência dos conflitos civis! E houve governantes que foram chacinados no meio de purgas políticas sanguinárias, como aquela que ocorreu em 19 de Outubro de 1921 e que ficou conhecida para a posteridade como a "noite sangrenta", em que foram barbaramente assassinados António Granjo - transmontano e ex-chefe de governo - conjuntamente com Carlos da Maia, Freitas da Silva e Machado Santos, herói da revolução de 1910! E antes disso, em 1918, foi igualmente assassinado Sidónio Pais, que era então o Presidente da República. E, repito, isso não foi assim há tanto tempo (há gente viva que nasceu antes dessas datas)!
Desenganem-se, pois, aqueles que julgam que o povo é e será eternamente sereno e ordeiro. As aparências iludem! A paz podre que vigora artificialmente, alimentada pela corrupção que grassa no seio da classe dirigente e que nos dias que correm se materializa, por exemplo, na prisão preventiva de um ex-primeiro-ministro, na prisão preventiva de diversos altos quadros da função pública, bem como na suspeição que é permanentemente lançada sobre a conduta ética e cívica de quem nos governa, pode conduzir a resultados extremamente perniciosos e incontroláveis para o nosso sistema democrático!
Daí a importância desta comemoração. Do reavivar do sofrimento colectivo que representou a ditadura! Que Abril nunca morra nos nossos corações, e que mantenhamos os sentidos alerta para o perigo que, qual espada de Dâmocles, permanece em suspenso sobre o frágil pescoço do sistema democrático português! Hoje, mais do que nunca, urge rememorar e comemorar "Abril"!
Viva Portugal!
Viva Mogadouro!
Viva o 25 de Abril!"

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Os Távoras em destaque na revista "Debater a História" (n.º 7)

O n.º 7 da revista "Debater a História" traz inserto um interessante artigo sobre a história da família dos Távoras, onde se fala do seu vasto e rico património. O concelho de Mogadouro, como não podia deixar de ser, é naturalmente focado no texto da autoria do Dr. Paulo Costa.
"Em Mogadouro, os marqueses conservavam residência no castelo, que era Bem da Coroa (fl. 19), "O Castello tem muito boas Cazas donde os confiscados e seos ascendentes costumavam assestir com seos picadeiros, cavallarisse, palheiros, pombal e galinheiro."
Os Bens do Morgado, em Mogadouro, de fruição dos próprios eram, sobretudo, dois: "A Tapada de Nogueira toda murada que compreende duas legoas em redonda, digo em cercuito com emencidade de gamos e veados. Tem duas cazas de quinta muito boas caza de forno e cozinha (...) a Quinta de São Gonçalo que pega com a de Nugueira (...)" - in revista "Debater a História", pág. 20.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Poblado de La Verde - salto de Aldeadávila

Desde pequeno que ouço contar histórias à minha mãe sobre a construção da barragem de Aldeadávila e sobre a povoação que foi erigida para albergar o staff da Iberduero. No passado domingo resolvemos dar lá um pulo para ver in loco tão falado local. O sítio é paradisíaco. Tem um convento franciscano do séc. XIII, que entretanto foi convertido em pousada. De um lado temos as arribas de Bruçó, onde foi rodada uma parte das filmagens do célebre "Dr. Jivago", e do outro temos as arribas de Lagoaça, mais suaves e cultivadas.
 Aspecto da povoação.
 O convento.
O quartel da Guarda Fiscal de Bruçó.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Máscara Ibérica - reunião de trabalho

Foto: Máscara Ibérica (clicar para ampliar).

Reuniu no pretérito fim-de-semana, em Sendim, um grupo de trabalho que juntou responsáveis da "Máscara Ibérica", representantes de diversos grupos de mascarados espanhóis e portugueses, investigadores, autarcas e comunicação social. Além do debate sobre questões de organização dos diversos certames ligados a esta temática, foram ainda gizadas estratégias para o futuro, numa área onde há muito caminho a trilhar. Foi um encontro rico e frutífero.

Parabéns ao prof. Carção pela excelência do espaço que nos acolheu (Curral de Tiu Pinu).

domingo, 12 de abril de 2015

A água das casulas...

A figura encarquilhada caminha em direcção a nós com o vagar típico da calma rústica que nos rodeia. Notam-se as dificuldades de locomoção. Terá mais de noventa e cinco anos - informa um dos presentes.
Dobrado sobre a gajata que o auxilia na caminhada, dirige-se ao grupo e saúda:
- Bôs tardes nos dê Deus!
- Deus nos dê bôs tardes! - respondemos em uníssono.
Perscruta-nos com atenção demorada. Estranha a minha pessoa e indaga:
- Quem é este senhor? Não o estou a conhecer.
Explicam-lhe quem eu sou.
- Ah... fui colega do seu paizinho, que no céu esteja. Éramos muito amigos. Que seja por muitos anos...
- Obrigado. - retorqui a amabilidade.
- É servido? prove um môrdo. Olhe que foi a minha mulher que fez o folar. E a cebola é da minha horta. - atirou o anfitrião
- Hum... - pigarreou - bem sabes que já não tenho dentes, nem saúde pra tudo. Até o vinho já me tiraram... - largou com nítida tristeza no olhar. Recompôs o semblante e lançou uma farpa afiada em direcção ao dono da casa:
- Olha lá, se fosse pra descabar a binha, não tinhas tanta gente! -largou entre sorrisos dos circunstantes. Virou-se novamente para mim e disse:
- Eu e o seu paizinho fizemos muitos turnos juntos! Era um bom homem! Ele chegou a falar-lhe de um colega que nós tivemos e que tinha a mania de beber a água em que demolhava as casulas?

- Não! - respondi, com a curiosidade aguçada pela natureza do estranho ritual.
- Era um tipo muito achacado às doenças. Tudo se lhe pegava. Um dia, descobriu que era diabético. E alguém lhe meteu na cabeça que a água de demolhar as casulas, bebida fria, fazia bem aos diabetes. Aquilo era amargo como o dianho. Mas ele emborcava meio litro daquela mistela todas as manhãs. Em jejum!
- E resultou? - perguntei.
- Nunca soube.
- Mas, ele morreu dos diabetes?
- Morrer, morreu. Do quê, não sei! - rematou com uma risada cavernosa, que lhe provocou um ataque de tosse.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A propósito de um pires de tremoços...

Em dia de descanso do período pascal sabe bem ouvir histórias. Esta decorreu há cerca de sessenta anos atrás. O protagonista, que de pretenso arruaceiro passou a guarda-fiscal e de guarda a tasqueiro, é pródigo em pormenores. Grande parte escapou-me. Apenas retenho os mais relevantes da narrativa.
- Sabe, ó advogado, quem mais mente em tribunal, é quem mais se safa!
Sentencia, sem me dar hipótese de retorquir.
- Estes tremoços são bons pró colesterol. Ainda estão meio amargos.
Vai dizendo, encostado ao balcão do Chop, enquanto manda vir três finos. Eu e o Victor agradecemos.
- Já tenho oitenta anos, sabe?
Não parece. Aparenta menos dez. Preserva a boa figura de outrora.

- Agarrei na piçarra e atirei-lha à cabeça. A sorte dele é que a pedra era mole e esmigalhou-se. Mas, a cabeça botou sangue! Fomos todos pró quartel da guarda. Foi o Riço que nos trouxe no táxi. Quem pagou, não sei. Eu era o mais novo. 
- E mentiu no tribunal? - indaguei...
- Claro! Ia dizer que fui eu? Ai não! Neguei tudo! E não é que o juiz acreditou em mim? Eu era o mais novo, já lhe disse. Aquilo, sabe... eram questões de namoricos. Já vínhamos picados de um baile da festa do Variz. Jogámos todos à pedrada. Eu tanto dei, como apanhei. No tribunal ainda me fiz de vítima. Mostrei uma ferida no braço. Até fui ao médico e tudo. Tinha levado uma calhoada, mas o de lá não ficou melhor! Os outros já tinham perto de trinta. Eu era um garoto! O juiz teve pena de mim e ainda me usou como exemplo e disse: "ponham os olhos nele! Tão novo e a falar a verdade!"
Lá tive que dormir uma noite na cadeia velha. E paguei cem escudos de caução para não ficar preso! Naquele tempo era dinheiro! A minha sorte é que um dos praças da GNR era meu tio. E dormi na tarimba dele. Foi um fartote, porque naquela noite também lá estavam presas umas putas. Eram as "marinheiras". Eram ciganas. Mas eram boas, caraças! Deixou-me ir espreitar à cela delas!
Ah... que tempos, ó senhor advogado! Que tempos...


terça-feira, 31 de março de 2015

Tertúlia Cultural na Estrutura Residencial Para Pessoas Idosas - SCMM

Teve lugar na sexta-feira passada uma tertúlia cultural em torno da minha obra e da obra do escritor António Sá Gué (oriundo de Carviçais), na Estrutura Residencial Para Pessoas Idosas São João Baptista, da Santa Casa da Misericórdia de Mogadouro.
Foi uma tarde agradável em que se falou de literatura e de cultura em geral, tendo como público preferencial os utentes daquela estrutura. Estiveram ainda presentes algumas alunas do Agrupamento de Escolas de Mogadouro, que integram um grupo de leitura coordenado pela professora Carla Ferreira.
Parabéns aos responsáveis da Santa Casa da Misericórdia de Mogadouro pela iniciativa e muito obrigado ao Dr. Fernando Zava pelo convite. Mogadouro valoriza-se com iniciativas deste género.


Fotos: SCMM.

domingo, 29 de março de 2015

III Encontro Astur-Luso: as máscaras de Mogadouro nas Astúrias

Decorreu este fim-de-semana mais um encontro Astur-Luso na localidade de Pola de Siero, nas Astúrias. Como já havia sucedido no passado, o concelho de Mogadouro fez-se representar pelos seus grupos de mascarados (com excepção de Valverde, pois não havia ninguém disponível para a deslocação). Houve dois desfiles: um no sábado, pelas ruas de Pola de Siero; e outro no domingo, pelas ruas de Valdesoto. Este certame permitiu o convívio entre diversos grupos de máscaras dos dois lados da fronteira. Foi interessante, pois permitiu-me observar figuras bastante idênticas às nossas, nomeadamente duas "Velhas" (uma da localidade de Cabreira e outra de uma outra localidade das Astúrias, cujo nome não percebi) que são em tudo iguais à de Valverde.
Fica aqui um abraço e o agradecimento ao alcaide de Bruçó, João Possacos, pelo convite que me permitiu acompanhá-los nesta mostra.














segunda-feira, 23 de março de 2015

Utilização de fotos do blogue

Já muita gente me pediu autorização para reproduzir fotos minhas. Autorização que nunca foi negada. Fica bem e não dói nada. E eu até gosto que se sirvam delas. Por isso, confesso que não me agrada muito ver as minhas fotos utilizadas sem o meu consentimento. Os direitos de autor até têm protecção legal...
E ainda menos me agrada ver fotos minhas com a indicação de que são de "ho mogadoyro". Quem tira as fotografias é o Antero Neto. "Ho mogadoyro" apenas serve para as divulgar. Enfim...

terça-feira, 17 de março de 2015

Pequenas histórias da História

Um destes dias, em amena cavaqueira, o meu amigo Dário Pombo, de Castelo Branco, contou-me um pequeno episódio que o envolveu a ele e à gente da minha terra, Bruçó.
Corria o ano de 1977 e ele tinha regressado de um período de emigração em terras teutónicas. Como é apreciador de um bom faduncho, resolveu fazer uma visita ao amigo Virgílio Pinto que nesse tempo residia em Bruçó, após retorno de África.
Como não tinha viatura, pediu ajuda ao seu cunhado, Heitor Osório Pereira, conhecido empresário da vila de Mogadouro. O falecido Heitor aproveitou a oportunidade para levar material de propaganda do MDP/CDE a dois irmãos de Bruçó, que o amigo Dário não me soube identificar. O pior foi que, quando ali chegaram, não só o Virgílio estava adoentado, como rapidamente se espalhou a notícia de que os comunistas andavam pela aldeia. E aí é que foram elas!
O sino tocou a rebate e quando ti Dário saiu do pequeno café ao pé da igreja, já tinha à sua espera uma pequena multidão composta por mulheres e rapazolas, devidamente armada com espalhadouras, calagouças e afins. Bem tentou explicar à populaça enfurecida que não tinha nada a ver com aquela marmelada. Que só vinha ali cantar uns fados. Mas, o povo não arredava pé! O cunhado, no interior do café, ainda sacou da arma com que se fazia acompanhar naqueles tempos turbulentos. Mas, ti Dário disse-lhe que era melhor guardá-la.
Lembrou-se então de ir pedir ajuda a outro amigo, o ti Elisário Valente (também já falecido), que morava mesmo em frente. E foi este, que já estava na cama, que se levantou e conseguiu acalmar a ira popular e lhes deu escolta até à saída da aldeia.
- "Que aflitinho me vi, doutor!"
Imagino...

domingo, 15 de março de 2015

"Serrar a Velha" em Remondes

"Esta velha tem malícia,
Esta velha vai morrer,
Venha ver serrar a velha,
Muita gente venha ver!"

"Serrem a velha,
Deixem a nova!
Serrem a velha
Até à cova!"
(versos retirados do panfleto distribuído em Remondes).

Em 2014, por iniciativa da União de Freguesias de Remondes e Soutelo, presidida pelo dinâmico António Cordeiro, foi retomada uma tradição que se tinha perdido há cerca de trinta anos atrás. Numa organização conjunta com a Associação de Desenvolvimento Social e Cultural de Remondes, este ano manteve-se a festividade a que pude assistir pela primeira vez. O cortejo, cujos participantes vão chocalhando e produzindo grande ruído e alarde, vai percorrendo as ruas da aldeia de Remondes e pára em locais predeterminados. Uma vez ali, a figura que vai em cima do carro de bois (embora, neste caso, puxado por um par de burros) lê um verso com crítica social, mandando serrar aquela velha. Em baixo, dois homens vão serrando um tronco. No fim de cada alocução, o coro que persegue o carro manifesta-se em uníssono. Depois de cada paragem, o cortejo coloca-se novamente em marcha, e assim sucessivamente até completar o percurso.


Mas, falemos um pouco desta tradição. Transversal a todo o país, realiza-se de Norte a Sul. Assenta em usanças pagãs, cuja origem se perde no tempo e tem lugar na cristã Quaresma (em mais uma das múltiplas "adaptações" católicas aos rituais pagãos). Como é sabido por quem se interessa por estas coisas, o calendário do universo rural não se prende com as comezinhas divisões administrativas oficiais. A vida do agricultor rege-se por ciclos produtivos (como, muito bem, referiu Carlos Ferreira no colóquio de S. Pedro da Silva). Já Jorge Dias dizia que "ao homem do campo o calendário interessa pouco." (in Rio de Onor).
A respeito desta festa cíclica, escreveu Teófilo Braga que "a Quaresma é representada por uma entidade e logo que se chega a metade deste período de sete semanas, faz-se a Serração da Velha. Entre os árabes, os sete dias de solstício do inverno são chamados os dias da Velha." (in O Povo Português...). Assim, na opinião deste eminente estudioso, o Serrar da Velha não representa mais do que a celebração do final do Inverno. Esta estação do ano é figurada pela Velha, cuja serração simboliza o seu fim. Até ao novo ciclo...

Algumas palavras finais de apreço:
1. para António Cordeiro pelo excelente trabalho que vem desenvolvendo com as suas persistentes pesquisas; Que nunca se canse...
2. pela excelente refeição que nos foi servida no final. Como disse o Mário Correia, há bem há que não comíamos uma massa que nos soubesse tão bem! Parabéns a quem a confeccionou...
3. para a participação maciça da juventude. Mais uma vez, garantia de continuidade do ritual...
4. ao executivo municipal. A sua presença serve para valorizar o trabalho da comunidade...