domingo, 1 de março de 2015

Amadeu Ferreira - in memoriam

Passou pela minha vida de forma muito breve. Breve, mas intensa. Intenso, como só ele sabia e conseguia ser. Com estima. Com a sua incomensurável sabedoria, foi-me dando alguns conselhos. Que sorvi com a sofreguidão dos aprendizes. Uma lição aqui. Outra ali. Sempre sereno. Mestre. Sábio. Foram poucas as vezes que estivemos juntos. Foram curtas as conversas. Mas ricas. Muito enriquecedoras. Trocámos ideias. Concordámos. Discordámos. Até que um dia, surgiu a notícia maldita...
Hoje, a Terra que lhe deu vida, veio reclamar o seu corpo. Mas, nunca o seu espírito. Esse prevalecerá ad aeternum no Panteão dos privilegiados que por obras valorosas se foram da lei da morte libertando. Tal como cantou o poeta maior Luís Vaz de Camões. Enquanto eu viver, caminharás ao meu lado. Um grande abraço, Amadeu!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Linha do Sabor - subsídios para a sua história

Estação do Variz (clicar na imagem para ampliar).

"Em 1898 Elviro de Brito mandou fazer o plano das linhas complementares das do Estado por duas comissões técnicas (...)
Linha do Pocinho - Por Moncorvo e Mogadouro a Miranda e Vimioso, de via larga para facilitar os transportes dos minérios de Reboredo. Esta linha teria o seu complemento no prolongamento do Pocinho a Viseu, como também se previa a da Régua a Vila Franca das Naves e a do Paiva (...)"
José Fernando de Sousa, in Segundo Congresso Transmontano.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Castelo dos Mouros - Bruçó

Tendo em vista a valorização e divulgação do património gastronómico (o genuíno e de raiz popular, sem restaurantes à mistura), associada à divulgação do património histórico e arqueológico do concelho de Mogadouro, tenho andado a congeminar, juntamente com um grupo de mogadourenses que fazem parte de uma associação que pretendemos revitalizar, uma espécie de jornadas em que se associam ambas as temáticas. E como há que começar por algum lado, hoje deu-me para fazer uma incursão ao "Castelo dos Mouros" de Bruçó, para cronometrar o percurso pedestre e verificar o estado das acessibilidades. Como sempre que vou ao castro de Bruçó, hoje descobri por lá algumas novidades. O Professor Dinis deu-me alguma esperança de que esta estrutura venha a ser devidamente estudada num futuro próximo. Oxalá...
Marcas indeléveis da passagem secular pelas rochas que pontuam o percurso.
Belíssimo e singular pontão, que permite a passagem sobre um ribeiro de água cristalina e pura (conforme atestam as salutares plantas que preenchem o regato).

Duas curiosas estruturas: uma aproveitada pelo homem e outra, fruto da acção escultórica da natureza.
Pano de muralha externa que o incêndio que devastou esta zona colocou a descoberto. Esta fracção de muralha contrariou a ideia inicial que eu tinha. Afinal, o último reduto fica uns bons vinte metros mais abaixo. Há males que vêm por bem...
Pano de muralha em perfeito estado de conservação.
Um dos guardiões do templo.
Um pedaço de história abandonado.
Mais esculturas da mãe natureza, pontilhadas pela mão humana.

E como estamos em Bruçó, não podia falhar uma visita às adegas dos velhos amigos, onde nada se deixa faltar. Presunto, queijo, salpicão, nozes, amêndoas, figos secos, azeitonas cortilhadas, pão caseiro, vinho e são convívio entre espíritos simples e puros (Ti Evangelino, Ti Américo, Ti Fernando "Mata", Fonseca, Ti Macário, Álvaro, etc...). Um grande bem haja a todos!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Mogadouro e as lutas civis de Castela - séc. XV

Castelo de Mogadouro - desenho de Duarte d'Armas.

A pacata vila de Mogadouro merece lugar na história da vizinha Espanha devido a um episódio da guerra civil que afectou Castela no séc. XV e que opôs as facções do príncipe herdeiro, D. Henrique, às do rei D. João II.
O Conde de Benavente, D. Afonso Pimentel, um dos titulares de Castela, afecto ao movimento do príncipe herdeiro, conseguiu evadir-se da prisão para onde o tinha enviado o rei e fugir para Portugal, onde o nosso rei D. Afonso V, em Fevereiro de 1449, lhe concedeu asilo político em Mogadouro, junto a Álvaro Pires de Távora, senhor desta vila.
"Se fué al rreyno de Portugal, a una vila çerca del moxón de Portugal que se llama Mogodoyro, en la qual fué anparado e rreçeptado, porquanto era natural de Portugal de parte de su padre e tenía ende muchos buenos parientes."  (in Crónica del Halconero de Juan II).
Entretanto, devido ao usual jogo de interesses políticos, o mesmo soberano português haveria de dar ordem de expulsão a D. Afonso Pimentel, por carta régia escrita em Évora, datada de 19 de Fevereiro de 1450. A missiva começava assim: "Honrrado comde, amíguo..." É caso para dizer: com amigos destes...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Às voltas por Penas Roias

Já tinha estado nas ruínas da capela de S. Miguel, em Penas Roias, mas, na altura, o local estava cheio de silvas. Entretanto, foi limpa de mato e pode ser apreciada com maior pormenor.
Ao mesmo tempo, aproveitei para mais uma viagem à volta da albufeira de Bastelos, que abastece a vila de água potável. Este circuito é dos mais belos do concelho e permite a observação de variada fauna e flora.








sábado, 7 de fevereiro de 2015

Cova dos Lobos - Sampaio

Este post podia chamar-se "em demanda da fraga que bota fumo", pois foi esse o motivo que me levou a Sampaio. O cabo Xico tinha-me mencionado esta pedra por cujas frestas saía fumo. E como me disseram que em Soutelo (a pouca distância de Sampaio) também há um local onde sai fumo (ou vapor) da terra, então a minha curiosidade aumentou. Para tristeza da comitiva, a dita fraga não botou fumo. Mas, mesmo assim, a viagem valeu a pena. Descemos mais vinte metros e visitámos a "Cova dos Lobos", que é uma cavidade natural que se formou debaixo de um imponente maciço rochoso de xisto. Parece que, no tempo das passagens a salto para França, chegou a albergar foragidos à lei. E digo-vos que não seria fácil a qualquer agente da autoridade lobrigar quem se escondesse neste local ermo.
Eis a fraga que supostamente devia botar fumo. Segundo o amigo Ambrósio, que foi o nosso guia, tal fenómeno só se verifica nos dias de muito frio. Mas, se com o barbeiro que se fazia sentir hoje não fumegou, não quero ir lá em dia mais rigoroso para observar o fenómeno...
 Entrada para a "Cova dos Lobos".

 Interior da cavidade.
 Com o nosso guia, ti Ambrósio, junto à boca da cavidade.
 A imponente paisagem sobranceira ao rio Sabor.
Já na adega do cabo Xico, onde se provou a pinga da última colheita.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Forno dos Mouros - Brunhoso

Há muito que andava para ir até ao "Forno dos Mouros", em Brunhoso. O meu antigo aluno, Luís Cordeiro, já me tinha lançado o desafio há cerca de dois meses atrás. Ontem tomámos a decisão de meter pés ao caminho. Debaixo de um vento do género "barbeiro" (como dizia o antigo lateral direito do FC Porto, João Pinto, "não estava frio, nem estava calor. Estavam zero graus"), mas com o sol a agraciar-nos timidamente com a sua presença, encetámos caminhada de uma hora e vinte para cada lado (o local é acessível por viatura TT, mas preferimos ir a pé). A liderar a comitiva ia o experiente Fernando Cordeiro, acompanhado pelos filhos António e Luís.
À medida que Brunhoso desaparecia do horizonte, iam surgindo espessas manchas de sobro e fartos olivais, que fazem jus à riqueza desta terra. Lá ao fundo, assomava o ora pujante rio Sabor.
 Foto: Luís Cordeiro
Foto: Luís Cordeiro
Uma vez chegados ao local, confesso que me assustei com as condições de acesso. A flexibilidade já não é a de outrora e as fragas metem respeitinho. Mas, devidamente orientado pelos nossos guias, lá consegui trepar até ao interior do buraco.

Como se pode observar pelas fotos, o interior é bastante amplo.
E da sua boca observa-se paisagem de cortar a respiração!
Aspecto da entrada.

Refira-se que no sopé desta elevação, junto à margem do rio, foram descobertas estruturas habitacionais que indiciaram a ocupação humana do local, possivelmente (digo "possivelmente" porque não as cheguei a ver e não tive acesso aos respectivos estudos) da época romana. Quando questionei o Luís e o pai acerca da explicação popular para esta estrutura, disseram-me que apenas se constava que ali tinha habitado gente. Ora, da análise sumária do local, bem como da ponderação dos outros factores, tudo me leva a crer que estamos na presença de mais uma exploração mineira romana. Como é sabido (já o Abade de Baçal alertava nesse sentido), sempre que a toponímia nos remeter para os "mouros" estamos em presença de locais de interesse arqueológico (e, repito, nada de confusões entre estes "mouros" e os árabes, como às vezes ainda se vê nalgumas obras. Ainda recentemente deixei de comprar um livro - "Portugal - O sabor da Terra" - porque, entre outras calinadas respeitantes ao concelho de Mogadouro, ali se afirma que uma das provas da presença árabe no nosso concelho está no designado "castelo dos mouros" de Algosinho... Irra!). Carecendo embora de ser caucionada por especialistas, a minha opinião, alicerçada na experiência que obtive quando acompanhei a equipa de arqueólogos espanhóis que estiveram em Mogadouro no ano passado, é a de que se trata de uma mina abandonada. Segundo me referiu Fernando Cordeiro, haveria outras minas nas proximidades. Só que já estão destruídas e o acesso é muito complicado. Por isso, não fomos lá.

Isto foi de manhã. À tarde, toca a rumar até Torre de Moncorvo, onde se inaugurava uma exposição dedicada à máscara no Museu do Ferro, com a presença do Dr. António Pinelo Tiza a proferir palestra sobre a temática. A experiência foi, como não podia deixar de ser, enriquecedora e permitiu-me conhecer curiosa costumeira carnavalesca do Felgar.

Tempo igualmente para me deliciar com as animadas palestras do Dr. Nelson Campos e, no final, para acompanhar o prof. Arnaldo Silva a uma visita guiada ao Núcleo Museológico da Fotografia do Douro Superior. Estrutura magnífica que nasceu da paixão deste homem pela fotografia e que o levou a cometer a loucura de se endividar financeiramente para cumprir o seu sonho. Se o leitor calhar de passar por estas latitudes não deixe de lhe fazer uma visita, pois vale bem a pena.
E depois de um domingo destes, lembro-me do tempo em que tomei a decisão de regressar ao interior e dos meus amigos me dizerem que ia morrer aqui de tédio, e que não havia nada para fazer nos tempos livres, e que etc. e tal...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sopas de Tchis

A propósito da louvável iniciativa do Município de Mogadouro - Fins de Semana Gastronómicos, resolvi repescar aqui as semi-desconhecidas "Sopas de Tchis".

As "Sopas de Xis" são, na realidade, as "Sopas de Tchis" em versão citadina ("fidalga", se quisermos usar um termo mais prosaico). Efectivamente, a designação correcta é esta última, pois o nome deve-se ao som produzido pelo azeite a ferver quando é derramado sobre as sopas (tchhhhh).
Este petisco era comum nas casas dos lavradores em tempo de matança do porco (confesso que em minha casa não se usava).
A confecção inicia-se com a junção dos ingredientes: pão, sangue de porco cozido, alho, caldo de carnes, azeite, maçãs, laranjas e azeitonas.
De seguida, corta-se o pão em fatias muito finas (sopas) e coloca-se uma primeira camada no prato.
Depois, junta-se uma camada de sangue cozido. Outra de sopas e assim sucessivamente. A última camada de sangue leva o alho picado.
Quando este processo estiver concluído, deita-se o caldo de carnes sobre o conjunto.
Por fim, adiciona-se o azeite a ferver.
Finalmente, colocam-se as maçãs e as laranjas fatiadas para enfeitar o prato (há quem também junte azeitonas).

Last, but not least, há que comer. Bom apetite...

Post Scriptum: depois de feita esta publicação, o amigo e leitor atento, Zé Maria Silva, de Castelo Branco (residente em Lisboa), enviou-me mensagem em que fez duas observações. A primeira prende-se com o uso da laranja. Se é tradicional. Apenas posso responder que nas aldeias ribeirinhas do Douro a cultura da laranja sempre existiu. Nas outras localidades, desconheço se usavam a laranja.
A segunda tem a ver com a espécie de maçã usada. A maçã que se utiliza é a popularmente conhecida como "agre", ou "ácida". Porquê? Penso que a explicação reside em dois factores complementares: é a única maçã que se conserva naturalmente até ao Inverno e o seu sabor, ligeiramente ácido, serve para contrapor ao paladar forte do sangue de porco cozido.