domingo, 2 de agosto de 2015

Fonte de mergulho em Viduedo

Foto gentilmente enviada por Ulema Pinto, retirada da página de Viduedo do Facebook.

Viduedo pertence actualmente à freguesia de Azinhoso (juntamente com Sampaio). Contudo, já foi freguesia sobre si, pertencendo ao extinto concelho de Penas Róias. É o que se extrai das Memórias Paroquiais de 1758. Chamava-se então "Vidoedo do Peso". E escreveu o padre da paróquia desse tempo, Domingos Martins, que "no mesmo ribeiro, entre o povo e o dito val, tem huma fonte perene em todo o tempo, nas costas da mesma igreija." Mais adiante, diz-nos que "entre estes dois lugares, em hum campo do concelho, termo do mesmo Vidoedo, está hua fonte chamada fonte de São João, donde muitas pessoas se vão banhar por serem estas achaquosas." (fonte: J.V. Capela, et alia, "As Freguesias do Distrito de Bragança...", p. 572)

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Tecelões judeus em Mogadouro - séc. XV

Já aqui se falou da dinâmica económica do concelho de Mogadouro no séc. XVI. Agora, com base em informação fornecida pela investigadora Maria José Ferro Tavares, ficamos a saber que existia um centro de produção de tecelagem em Mogadouro, propriedade de judeus, no séc. XV.
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Fonte: Joana Sequeira, "O Pano da Terra", pág. 38.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Os judeus em Vilarinho dos Galegos, no ano de 1925

Retrato de Vilarinho dos Galegos, segundo o anti-semita Mário Saa, em obra publicada no ano de 1925:
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quarta-feira, 29 de julho de 2015

A diáspora a salto - II

Novo encontro com o David Casimiro para novas entrevistas com protagonistas das passagens a salto para França. Desta vez, fiquei a jogar em casa, que é como quem diz, fomos até Bruçó. Primeira paragem na "Caverna", para troca de impressões com ti Evangelino, representante do longo braço armado da Lei - a Guarda Fiscal.
Quartel da Guarda Fiscal, no Casal do Vaso, em Bruçó.
Lá nos contou por onde era costume fazer-se a travessia em direcção ao eldorado franciú: Marrussa, Canas, etc... Falou-nos das balsas improvisadas com câmaras de ar e tábuas, puxadas por cordas. Dos espanhóis. Do contrabando. Memórias...
Depois, rumámos à Barreira, para agradável conversa com ti Elisário "Fadista". Partiu em 1963. Foi dos primeiros da aldeia a dar o salto. Da parte final, ficou-me uma tirada que resume tudo:
- "Foi feliz em França?
- Se fui feliz? Fui. Muito feliz. Ali havia dinheiro em todos os bolsos..."

terça-feira, 28 de julho de 2015

A economia de Mogadouro no séc. XVI

Um dos indicadores da economia local é o registo de exportações. Assim, através da análise desses dados, ficamos a saber que no séc. XVI, em Mogadouro se produzia linho, cânhamo e seda (este produto devia ser produzido em grande quantidade, atentos os números. Era comercializada sob a forma de seda fina, grossa e seda macho). Também exportava mel, cera (os elementos disponíveis apontam igualmente para grandes níveis de produção) e peles de raposa. O forte da produção industrial local eram os têxteis, com especial destaque para a estopa.  
O porto de Mogadouro registava elevada presença de pequenos artesãos e mercadores neste século. Mais, uma vez, aqui se nota a importância da presença judaica nestas latitudes. Lá para o ano que vem teremos novidades em matéria de actividades ligadas à memória marrana dos dois lados da fronteira... 
Quanto às principais importações locais, os produtos preferidos eram sobretudo panos castelhanos.
Fonte: Isabel Freitas, "Mercadores..."

segunda-feira, 27 de julho de 2015

I Edição do PAN em Carviçais

Terminou ontem à noite a primeira edição do festival PAN em solo luso, mais concretamente em Carviçais, no vizinho concelho de Torre de Moncorvo. Só estive presente no domingo, mas fiquei impressionado com a qualidade superior do certame cultural, que teve como mote o património, com especial enfoque na Linha do Sabor. Ao longo dos três dias que durou, rumaram a Carviçais vários poetas, escritores, investigadores, artistas plásticos, etc. Houve bastante participação popular (nas iniciativas que presenciei) e o balanço final só pode ser muito positivo. Parabéns aos promotores da ideia de transferir a iniciativa para terras ibéricas do lado de cá do risco político que não nos divide. Grande abraço ao Carlos d'Abreu e ao António Lopes (António Sá Gué) e obrigado pelo amável convite para participar com um pequeno e modesto contributo no livro que resultou deste festival e que foi apresentado na manhã de ontem. Parabéns igualmente a Manuel Ambrósio e a nuestros hermanos que estiveram presentes.



 O grupo de gaiteiricos mogadourenses "Filhos da Terra", que também contribuiu para a animação do evento.
Ao Dr. Carlos Sambade coube a tarefa da apresentação da obra.
O Dr. Daniel Conde fez uma apresentação relacionada com a hipótese de reabilitação da Linha do Sabor. Trabalho magnífico, bem fundamentado e alicerçado em números concretos que convenceu os muitos presentes da bondade da proposta. Este estudo, que está inserido no livro, colocou ainda a nu a vergonhosa atitude governativa dos últimos 30 anos para com os caminhos-de-ferro portugueses. Revelou ainda os custos pornográficos da "ciclovia" do Sabor, que foi feita em parte do percurso da antiga linha férrea. São dados e números que deviam ser do conhecimento do grande público e que revoltam qualquer um...
A apresentação do livro decorreu nas degradadas instalações da antiga gare. Mas, tal circunstância não afastou ninguém, pois a sala esteve à pinha e ainda contou com a animação musical da simpática tuna da Lousa. Para além desta iniciativa, houve momentos musicais, teatro, declamação de poesia e diversas exposições de fotografia e pintura, um pouco por toda a aldeia. O lema era "Difícil", mas a única dificuldade que vislumbro é a da recuperação da Linha do Sabor, porque, de resto, quando há boa vontade e capacidade de iniciativa, tudo se faz...
 Curioso e interessante urinol...
 A bonita "Fonte do Gil", onde se chega depois de calcorrear uma belíssima calçada. Pena que não tenha havido mais critério na escolha dos materiais de reconstrução do pequeno monumento...
Esta viagem permitiu-me ainda ser agraciado com duas primeiras edições de escritos de Trindade Coelho. Um grande bem-haja ao professor Arnaldo Silva!
Quem desejar adquirir o livro "A Linha do Vale do Sabor", poderá fazê-lo, para já, através de encomenda na página electrónica da editora Lema d'Origem. Digo-vos que vale a pena!

sábado, 25 de julho de 2015

Passagem "a salto" para França

Na sequência de uma investigação conduzida pelo Dr. David Casimiro, jovem valor mogadourense, natural de Urrós, autor do livro "Auto da Criação do Mundo", resultado da sua tese de doutoramento, fomos conversar com ti Serafim, para que nos contasse alguns pormenores do tempo em que foi "passador" de gente, sonhos e esperanças para França.


Denotando ainda algum receio, não obstante a minha presença amiga, os octogenários ti Serafim e esposa, D. Bernardina, lá foram desvendando alguns episódios de uma existência atribulada que envolveu aventuras e desventuras, prisões, PIDE e Salazar à mistura. Meteu-se nessa actividade "p'ra ver se ganhava quatro croas". E porque "as pessoas viviam miseravelmente. Só queriam ir daqui p'ra fora!" E da PIDE? "Olhe, não tive queixa p'ra eles. Fui toda a viagem a chorar. Só queria passar a consoada com a minha mulher e os meus filhos..." "Se fosse hoje, não me tinha metido nisso!"
Isto é só um cheirinho daquilo que poderá ler na obra do David, que deve ser publicada no próximo ano. Há episódios simplesmente deliciosos. Outros de puxar a lágrima. Valerá a pena ler...

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O legado patrimonial dos Távoras no concelho de Mogadouro

A propósito de uma saudável troca de impressões após a degustação de um belo arroz de lebre, o Francisco Pinto questionou-me sobre o legado patrimonial da família dos Távoras no concelho de Mogadouro. Aqui ficam alguns registos (fica a faltar a Quinta do Marmoniz, pois não consegui encontrar as fotos):
 Pontão entre Zava e Mogadouro.
 Ponte de Remondes.
Monóptero de S. Gonçalo.
Castelo de Mogadouro (embora a origem seja muito anterior à vinda da família para Mogadouro, na sequência da crise de 1383/85, foram eles que lhe deram as vestes de palácio residencial, pois ali estabeleceram a sua morada).
 Pontão entre Valverde e Meirinhos.
 Convento de S. Francisco.
Casa das colunas (casa do Ouvidor, casa das Ferreirinhas...).
Quinta de Nogueira.
Quinta de Crestelos (Meirinhos).

Após o trágico desaparecimento desta nobre família às mãos dos algozes do Marquês de Pombal, os brasões foram picados ou eliminados. Infelizmente, o da casa das colunas foi destruído/removido em data muito posterior. Fala-se que sobreviveu um, que estará na Quinta do Marmoniz, mas tal não passa de rumor, a carecer de confirmação.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Red Burros 2015

É já no próximo sábado...

sábado, 18 de julho de 2015

Igreja de Urrós

Até apetece dizer que agora aprendi o caminho e não saio de lá. Mas, Urrós é uma aldeia com um tremendo potencial e fonte inesgotável de riqueza patrimonial e histórica. Hoje, tocou-me ir visitar a igreja paroquial. O cicerone voltou a ser tiu Barrios e, desta vez, acompanhou-nos o amigo Beto Costa. Quanto ao templo em si, consta numa das colunas a data de 1771. Certamente uma das muitas em que sofreu obras de beneficiação e remodelação.
O cura Simão Vaz Frois, na resposta ao inquérito paroquial de 1758, deixou escrito que o orago é Santa Maria Madalena e que a igreja "tem sinco altares, em o maior está o orago Santa Maria Madalena, e em dois colaterais, da parte do Evamgelio, está em o primeiro Nossa Senhora do Rosario, em o segundo, o Santissimo Christo da Piedade, em o primeiro colateral da parte Epistola esta Santo Antonio, o Menino Jesus, Santo Ubaldo, em o segundo esta Santa Barbora. Tem duas naves, não tem irmandades." (in "As Freguesias do Distrito de Bragança...", coordenação de J. V. Capela, pp. 564/565).
Armário ricamente trabalhado, que faz parte do espólio do templo.


Uma das muitas bodegas de Urrós. Infelizmente, e ao contrário desta, a maior parte encontra-se em ruínas. É um aspecto a merecer a atenção das entidades responsáveis pela gestão municipal. Podia criar-se aqui um pólo de atracção a considerar. Assim houvesse boa vontade...
Uma nota final para a capela de São Fagundo. Segundo o cura de 1758, ela ainda estava completa nesse ano, sendo o seu responsável o padre Francisco Xavier Sopico, de Vimioso.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Mogadouro e as convulsões liberais

Num país de brandos costumes, à beira mar plantado. Algures no séc. XIX (em tempos não muito distantes...).
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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Cooperativa Agrícola de Ribadouro - história

"ALVARÁ.
Faço saber, como Secretário de Estado da Agricultura, que sendo-me presentes os estatutos com que pretende constituir-se, (...) uma Associação Agrícola com a denominação "Adega Cooperativa de Ribadouro (Mogadouro - Miranda do Douro), S.C.R.L.", com sede em Urrós - Gare, e circunscrição limitada às freguesias de Bemposta, Brunhosinho, Castanheira, Peredo de Bemposta, Tó, Saldanha, Sanhoane, Travanca, Urrós e Ventuzelo do concelho de Mogadouro e as de Atenor e Sendim do concelho de Miranda do Douro (...)."
Secretaria de Estado da Agricultura, 3 de Fevereiro de 1959
Primeiros órgãos sociais:
Direcção
- presidente: Dr. José de Sousa Machado Ribeiro Lopes;
- secretário: Dr. José António Pinto Cordeiro;
- tesoureiro: Adalberto Rodrigues Pires.
Conselho Fiscal
- presidente: Herman Augusto Ramos;
- vogal: Manuel João de Deus Martins Manso;
- vogal: Lázaro Augusto Cordeiro.
Mesa da Assembleia Geral
- presidente: Dr. Valentim Guerra;
- primeiro secretário: padre António Maria Mourinho;
- segundo secretário: Afonso Batista Telo de Castro.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Pelourinho de Penas Róias restaurado

Foi recentemente inaugurada uma réplica do pelourinho de Penas Róias, que pode ser apreciada na aldeia, que outrora foi sede de concelho (recordo que tem o foral mais antigo do actual concelho de Mogadouro). Como um dia escreveu o Abade de Baçal O pelourinho de Penas Roias, apeado pela onda de insensatez iconoclasta, que em meados do século passado vandalizou tantos outros, devem restaurá-lo como fizeram os de Vila Flor, Vilar Seco de Lomba, Vinhais e todos os dias estão fazendo noutras terras, pois ainda existe parte do fuste e, como o seu desenho se encontra em Duarte de Armas, é fácil dar-lhe a traça primitiva, coisa que outros não conseguem tão seguramente. Acresce ainda que é dos do tipo chamado de gaiola e não há outro no distrito de Bragança. Penaroienses, mãos ao restauro do pelourinho, resgatando assim nobremente o erro passado, porque os pelourinhos são o símbolo da autonomia concelhia; a carta de nobreza e fidalguia de uma terra; o seu brasão ou pedra de armas; o documento, a prova da sua honra, do seu valor físico e mental; um motivo turístico; uma lição de civismo e de arte.in "Memórias...", vol. VIII, pág. 128.

 O pelourinho visto por Duarte d'Armas.
Imagem da cerimónia de inauguração (foto: Mensageiro de Bragança).

Está, pois, de parabéns o executivo liderado pelo alcaide José António Patrão, a quem aproveito para agradecer o convite para estar presente no acto. Infelizmente, razões de saúde impediram-me de me deslocar à aldeia.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

PAN - Festival Transfronteiriço de Arte em Carviçais e Morille

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Aqui está o cartaz da primeira edição em solo português do festival transfronteiriço de arte, poesia e património, que se denomina PAN e se vai realizar em Carviçais, terra do meu avô paterno (dias 24, 25 e 26 de Julho). Com a presença do grupo de gaiteiros mogadourense "Filhos da Terra" (onde actua a minha filhota). A não perder (é perto e bom caminho). A XIII edição, que se realiza em território espanhol terá lugar nos dias 17, 18 e 19 de Julho, na localidade de Morille, província de Salamanca.
Parabéns ao Carlos d'Abreu e ao António Sá Gué pela insistência nesta feliz "importação".

sábado, 27 de junho de 2015

Ponte de Remondes - subsídios para a sua história

Agora que o caudal do Sabor se prepara para a engolir, fica aqui um tentame para aclaramento da história desta notável estrutura, cuja origem remonta ao séc. XVII, mas que foi sofrendo sucessivas obras de reabilitação e remodelação até há bem pouco tempo (a última intervenção terá sido há cerca de dez anos atrás).
Tudo começou em 1591. Segundo o alvará régio que Sousa Viterbo reproduz nas pág.s 452 e 453 do primeiro volume do seu "Diccionario historico e documental dos architectos...", a obra foi posta a concurso, inicialmente, naquele ano. Contudo, e ainda segundo o teor do mesmo alvará, datado de 12 de Setembro de 1611, a pedido dos oficiais da Câmara de Mogadouro, a obra foi novamente lançada a concurso nesse ano, porque os arrematantes da primeira empreitada faleceram sem a construir. Porém, a obra parecia estar amaldiçoada, pois ninguém a quis construir pelo preço proposto. O novo arrematante, João Gonçalves, de Torre de Moncorvo, sugeriu alterações ao projecto, mas pediu mais três mil cruzados do que o inicialmente previsto. Foi lançado imposto (finta) para pagamento dos três mil cruzados pelas comarcas de Guarda, Coimbra, Esgueira e Viseu, e pelos restantes nove mil cruzados (preço inicial), foram taxadas as comarcas de Miranda, Torre de Moncorvo, Guimarães, Porto e Lamego.
A ponte haveria de ficar concluída em 1678, conforme consta de uma epígrafe que se encontrava no local e que alguém se deu ao trabalho de furtar (certamente, para a guisar com batatas...). A epígrafe assinala que a obra foi realizada por mestre António de Sousa, de Torre de Moncorvo, sendo provedor o Doutor Diogo Vaz de Aguiar. Como se pode ver, houve alteração no mestre da obra. Como, quando e porquê, não sei.
A montante desta ponte, existem restos de uma outra muito mais antiga, aparelhada em xisto (note-se que não pode haver confusão com a mencionada no alvará, pois ali prescreve-se especificamente que o aparelho será feito em granito!).
Em 1758, o padre Luís Barbosa, cura de Castro Vicente, na resposta ao inquérito que ficou conhecido como "Memórias Paroquiais de 1758", escreveu que "A segunda [ponte] hé no termo desta villa entre esta villa e Remondes, com sinco arcos de cantaria com baluartes da mesma cantaria. Também se acha sem goardas por lhes ter levado o rio no mesmo anno de mil setecentos e sete." ("As Freguesias do Distrito de Bragança...", JV Capela et alia, pág. 542).

Avançando uns anos, o Dr. António Mourinho, num trabalho publicado na revista "Brigantia", de Jan/Abril de 1996 (Vol. XVI, pp. 3-13), dá-nos conta de nova finta relacionada com a ponte de Remondes, lançada em 1796, após petições feitas nesse sentido, pelos competentes titulares camarários, em 1791 e 1792. Desta feita, o dinheiro destinava-se à realização de obras de reconstrução, após graves danos causados na estrutura pelas cheias ribeirinhas de meados desse século. O montante das obras orçou em três contos e duzentos mil réis e foi repartido pelas comarcas de Miranda do Douro, Torre de Moncorvo, Guimarães e Bragança. O mestre pedreiro responsável pela empreitada foi José Gonçalves, de Santa Maria de Âncora, no Minho.

Um outro apontamento histórico prende-se com o período das convulsões liberais. O juiz de fora de Monforte, Francisco Joaquim Teixeira de Macedo, lavrou um ofício, em Mogadouro, com data de 4 de Março de 1827, onde, entre outras coisas, diz que o regimento de caçadores 7, o batalhão de infantaria 6 e perto de cinquenta cavaleiros, que tinham pernoitado na aldeia de Remondes, tinham utilizado esta ponte na sua fuga ao exército constitucional, provindos de Mirandela, em direcção a Bruçó, para tentarem refugiar-se em Espanha. O general Telles, que os comandava, no ímpeto da fuga, danificou a ponte de Remondes, procurando assim atrasar o avanço dos seus perseguidores.

Terá sido devido aos danos provocados pela tropa nesta ponte que, em 30 de Julho de 1839, a Junta Geral do Districto de Bragança deixava lavrado em acta o seguinte texto:
"Entre as comunicações interiores do Districto merece a particular attenção da Junta, a Ponte de Remondes, collocada entre a villa de Castro Vicente, e Mogadouro, e communica os povos da margem direita com os da esquerda do Sabor, conduzindo por terra todo o commercio do Porto, e levando para o Districto de Villa Real todos os cereaes do Concelho do Mogadouro, e partido de Miranda: e é ainda mais interessante por ser o vehiculo do commercio para Hespanha pelo ponto de Lagoaça(...)
(...) e seria pena que uma obra tão magistosa, e que tanto dinheiro custou, e que tão precisa é, se acabasse de arruinar, por quanto já os seus arcos se acham descarnados, e as guardas cahidas
... "

Mais haverá certamente para contar acerca deste belo monumento. Ficará para investigação mais aturada.

terça-feira, 23 de junho de 2015

A noite "mágica" de São João

Celebra-se na próxima noite mais uma importante festividade pagã que, à semelhança de tantas outras, foi assimilada pela igreja cristã que lhe atribuiu o patronato de São João Baptista. O concelho de Mogadouro conserva lendas interessantes sobre esta data, nomeadamente no que à água diz respeito. Embora o culto desta noite esteja mais conotado com o fogo, o que é facto é que as fontes, o orvalho e os rios também estão directamente relacionados com esta festividade.
Fonte em Tó.
Assim, desde logo, na freguesia de Tó é-nos referida uma lenda segundo a qual se os pastores mergulhassem as ovelhas numa fonte, durante a noite de S. João, mas antes do nascer do dia, a água curava a ronha dos animais.
Das respostas ao inquérito paroquial de 1758 também se colhem outros dados relacionados com esta crença. Em Paradela, o pároco João Martins escreveu que havia uma fonte situada no Vale do Manco  cujas agoas (…) tem virtude para curar sarna e outros achaques, dia de S. João Baptista (…) e dia de S. Pedro (…) e alguns dizem que a todos os terceiros domingos dos meses”. E em Peredo da Bemposta, o padre Thomé Luiz fala da “fonte de Sam Joam”, e diz que “quem se meter nella na manhã de Sam Joam tira a sarna.” 
O Abade de Baçal, no vol. IX da sua obra, diz-nos o seguinte: “As Quinquárias, levadas a efeito no dia 13 do mesmo mês pelos tocadores de flauta, e as festas dos pastores em honra de Pales, celebradas a XI das calendas de Maio (21 de Abril), que, embora não caíssem em Junho, se relacionam com o costume de banhar os gados nos rios durante as manhãs de São João e São Pedro, por estar a água benta, pois também naquele dia os pastores romanos pecura sua lustrabant”.

domingo, 21 de junho de 2015

Urrós: "Pegadas dos Mouros", necrópole e "Pena Campã"

Mais uma viagem a Urrós, na demanda das inúmeras riquezas patrimoniais e arqueológicas que o seu território alberga. Mais uma vez, a condução foi feita por ti Artur Bárrios, complementada pela preciosa colaboração do alcaide local, Belarmino Pinto. O objectivo principal da visita era a fraga com gravuras em forma de pegadas. Ti Bárrios não sabia bem o nome. Chamava-lhe a fraga do testamento, pois terá ouvido a um estudioso, em tempos, que as gravuras seriam uma espécie de testamento. Começámos por visitar duas sepulturas pétreas, próximas das ruínas da capela de S. Fagundo. Numa primeira visita ao local já tinha identificado e fotografado uma parte desta necrópole. Hoje referenciei o que me faltava. Parece que terão existido algumas antas, ou cistas, perto deste local. Porém, trabalhos agrícolas destruíram as estruturas, sendo praticamente impossível observar o que quer que seja. Tal como destruíram o que se supõe fosse um forno romano. Que pena...
 Curioso algeroz, junto a uma casa de arquitectura que indicia origem judaica.
 A capela de S. Fagundo.


As duas sepulturas que me faltava fotografar. A este propósito, deixo aqui uma pequena citação que poderá deixar pistas sobre a sua cronologia: “Tentando estabelecer uma cronologia e tipologia para estas sepulturas, os arqueólogos dizem que as primeiras são as de planta oval, rectangular ou trapezoidal, e pertencem aos séculos VI/VII. A partir do século VIII, ter-se-à iniciado um movimento no sentido da antropomorfização das sepulturas. Movimento que atingiria o seu período áureo nos séculos IX-XI. A partir daqui, continua VALERA (1990), cairiam em desuso, mas a sua utilização é atestada até aos séculos XII-XIV. António Cruz defende mesmo a sua utilização, no mínimo, até ao século XV. COIXÃO (1999), para as sepulturas da capela de São João, Prazo, propõe datas semelhantes: as sepulturas escavadas na rocha, séculos V/VII; sepulturas construídas com pedras alinhadas, séculos VII/VIII-IX. Para os sarcófagos graníticos antropomórficos, séculos XII/XIII.” - O CULTO DE MITRA E AS SEPULTURAS ESCAVADAS NA ROCHA, por António Maria Romeiro Carvalho, in AÇAFA on line, nº 2 (2009), pág. 14.

A famosa rocha com as "Pegadas dos Mouros". No "Portal do Arqueólogo" é dito que “A superfície gravada terá cerca de 3 metros de comprimento por dois de largura, e apresenta grande quantidade de covinhas e pegadas, para além de muitas concavidades naturais. A sua cronologia será quase seguramente medieval, devendo estar relacionada com o sítio de São Fagundo, em que se insere.”

 A visita terminou com uma ida a "Pena Campã". Segundo a tradição, estas cavidades interiores produziriam sons semelhantes ao de campainhas. Daí o nome. Hoje, como se pode observar pelos vestígios deixados no interior, este sítio, além de ser um local de atracção para os visitantes e para os locais, é igualmente frequentado por javardos de duas patas.
Ti Bárrios e Belarmino Pinto em frente a Pena Campã.
Vista lateral do monumento natural, que deixa percepcionar que se terá fraccionado algures no tempo. Segundo os meus guias, este sítio serviria para estiar as ovelhas.

Foi mais uma visita profícua, plena de interesse. Outros sítios ficaram ainda por ver. Fica para próxima oportunidade. Um abraço aos meus pacientes cicerones.