domingo, 17 de Agosto de 2014

Ainda a Obisparra

Ainda a propósito da festa da "Obisparra", Francisco Pascual ("Mascaradas...") fala-nos deste evento, mas na vizinha localidade de Torre de Aliste. As personagens são as mesmas. O investigador espanhol confirma aquilo que eu suspeitei: "los personajes que intervienen en la Obisparra siempre son hombres (mozos)". Fala dos Diabluchos que percorrem as ruas da aldeia, fazendo soar os chocalhos, acordando as pessoas e batendo às portas. Numa outra nota, menciona que estes Diabluchos tisnam as moças da aldeia com uma cortiça queimada. O peditório é feito por toda a povoação e são recolhidos géneros alimentares (chouriças, salpicões, orelhas de porco, feijões, etc) com os quais é organizada uma ceia para todos os rapazes que participaram na festa. E se algum forasteiro entra na localidade, é o mesmo convidado a pagar uma taxa em dinheiro, que reverte igualmente a favor da festividade.
Como se pode ver, os pontos comuns com as nossas festas são muitos e variados...

Fotos: Antero Neto.

sábado, 16 de Agosto de 2014

A "Obisparra" de Pobladura de Aliste

Durante os estudos que tenho feito para melhor compreender os rituais de solstício de Inverno do concelho de Mogadouro, deparei-me com a "Obisparra" de Pobladura de Aliste, província de Zamora, Espanha. O que me chamou imediatamente a atenção e motivou a curiosidade foi uma dupla constituída por um soldado e uma companheira, que aqui toma o nome de "Filandorra". Nada mais, nada menos que o equivalente ao soldado e Sécia de Bruçó. Mas, as coincidências não se ficam por aqui. Outros dos protagonistas da Obisparra são um par de rapazes vestidos de bois, que puxam um arado. O conjunto completa-se com o lavrador, que segura o arado, o condutor dos bois e os semeadores que os precedem no cortejo e que vão espalhando palha à sua frente. Ora, nas minhas andanças e pesquisas por Vilarinho dos Galegos descobri que figuras exactamente iguais a estas saíam por altura do Carnaval.
Perante isto, tornava-se obrigatório ir observar a festividade in loco. Esclareça-se que a Obisparra se realizava tradicionalmente no dia 25 ou 26 de Dezembro. Contudo, devido à desertificação da aldeia e para atrair mais gente, os responsáveis decidiram transferi-la para o dia 15 de Agosto.

 O soldado e a Filandorra (esta personagem é interpretada por um elemento do sexo feminino, naquilo que me parece uma clara adulteração das figuras iniciais).
 Os bois a investirem contra o público. É uma constante ao longo do cortejo (principalmente se avistarem donzelas bonitas).
 A tradicional animação musical.
 Danças típicas da região.

 O soldado vai fustigando a Filandorra. Ao contrário de Bruçó, aqui é a mulher que apanha pancada e não os "amantes".
 Simulação da actividade de semear os campos de cereais, que depois são lavrados pelos bois.


 Em certos pontos do percurso são recriadas actividades ligadas à fiação da lã e do linho.
 Tal como nos rituais daqui, em Pobladura também há um peditório. Contudo, só é feito em casas previamente marcadas, onde actores estão preparados para receber os pedintes. Assiste-se a um pequeno "sketch" humorístico que diverte a população.
 Os bens doados são nacos de pão, toucinho rançoso, pé de porco igualmente rançoso, vinho e uma chouriça.



Fotos: Antero Neto.

Trata-se de um ritual claramente associado à fertilidade, num contexto agrícola. As suas características originárias sofreram claras alterações motivadas pelo decurso dos tempos. É uma festa bastante rica e movimentada, muito bem organizada, que vale a pena visitar. Pobladura de Aliste situa-se à distância de cerca de uma hora de carro (indo por Vimioso) a partir de Mogadouro.

quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Ruas de Mogadouro: "Rua de Santa Marinha"

Prosseguindo a inspiração no blogue de Teodósio Dias, hoje falo-vos da Rua de Santa Marinha.

Foto: Antero Neto.

Situada na parte antiga da vila, esta vetusta artéria liga o Largo Trindade Coelho ao Largo Conde Ferreira. Encontra-se intimamente ligada às primeiras memórias que tenho de Mogadouro. Quando aqui me fixei (com 5 anos de idade), juntamente com a minha família, morava aqui perto. Mais precisamente, nas traseiras da escola primária do Largo Conde Ferreira, onde me estreei nos estudos. Por isso, lembro-me de percorrer esta rua, que fervilhava de gente (muita dela acabada de regressar de África). Recordo-me dos "sótos" do ti Guilherme e do ti Zé Carvalho. Das tascas; da livraria do ti Amílcar. Tantas e doces memórias de infância...
Quem percorre esta via, se for observando com atenção, depara-se com alguns pormenores arquitectónicos deliciosos, como por exemplo uma casa com a fachada coberta por azulejos verdes, onde se encontram dois pequenos e curiosos painéis que nos fornecem pistas sobre o nome do primitivo proprietário. Ou outra fachada coberta com azulejos amarelos. E outras que valem a pena uma passeata mais demorada...
Mas, quem foi a santa que deu nome à rua? Já aqui falei anteriormente sobre ela. Foi Santa Marina, que por cá nasceu e viveu no séc. XV, tendo ido para terras de Salamanca, em Espanha, onde acabou por se fixar e falecer, sendo ali muito venerada.
O Abade de Baçal, no Tomo VII das suas "Memórias..." coloca em causa a data de 1450 indicada num dos documentos que aqui parcialmente reproduzo. Fica a dúvida. O convento situa-se em frente a Lagoaça, em território da província de Salamanca.


Clicar nas imagens para ampliar.
  

quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

Novas travessias sobre o Sabor


Fotos: Antero Neto.

Estão quase...

quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Clube Académico de Mogadouro volta a apostar no atletismo

O Clube Académico de Mogadouro anunciou recentemente que irá voltar a apostar no atletismo. Para o efeito, efectuou duas contratações de peso: os campeoníssimos Rui Muga e Pedro Rodrigues. Os atletas são ambos naturais do concelho de Mogadouro, mas competiam por outros clubes. Assim, junta-se o útil ao agradável: campeões a correr pelo emblema da terra. Parabéns a todos os envolvidos.
Fonte da notícia e foto: rádio Onda Livre.

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Azinhoso: os "Pelames"

"A deslocação à aldeia de Azinhoso permitiu igualmente observar alguns edifícios que julgo possuírem marcas arquitectónicas ligadas à populosa comunidade judaica que aqui viveu ao longo dos séculos. Embora o traçado urbano da localidade já se encontre consideravelmente adulterado por reconstruções do séc. XIX, ainda me foi possível identificar marcas distintivas da vivência judaica.

Tal como no caso de Vilarinho dos Galegos, também no Azinhoso existe um topónimo “Pelames”, numa zona situada junto à ribeira e que identifica igualmente o local onde eram curtidas e tratadas as peles pela comunidade local de cristãos-novos." (NETO, Antero, in "Marcas Arquitectónicas Judaicas e Vítimas da Inquisição no Concelho de Mogadouro. D. Luis Carvajal y de La Cueva", Lema d'Origem, 2013).

Fotos: Antero Neto.

sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Toleradas

"O moralmente rígido Catão, "o Velho", ao encarar com um jovem da nobreza romana a abandonar as instalações de um lupanar, disse-lhe: “Bravo! É aqui que os jovens devem satisfazer os seus ardores, em vez de se atirarem às mulheres casadas!”.
Uma inscrição encontrada em Isérnia, apresenta assim, de forma satírica, uma conta de estalagem: “Estalajadeira, vamos a contas!
– Bebeste um sexteiro de vinho: um ás.
- Comeste guisado: dois ases.
- Está certo.
- Pela rapariga: oito ases.
- Está correcto.
- Feno para o macho: dois ases.
- Este macho vai ser a minha ruína!” (NETO, Antero, in "Toleradas em Mogadouro - o suicídio de Maria Carçôna", ed. do autor, 2010)

quinta-feira, 31 de Julho de 2014

Vítimas da Inquisição no concelho de Mogadouro

O quadro que se segue tem por base de estudo os processos da Inquisição disponíveis no site da Torre do Tombo e inclui a aldeia de Lagoaça porque, tal como refiro no livro de onde foi retirado, na data destes factos a localidade em questão era parte integrante do concelho de Mogadouro.

Clicar no quadro para ampliar.

Os famosos “Tratos de Polé”

O “incentivo” à confissão de culpas, nos casos em que não houvesse provas contra o acusado ou em que a confissão deste fosse considerada insuficiente, passava pelos muito famosos “tratos de polé”. Esta forma de tortura consistia em pendurar o preso, vigorosamente atado por cordas. A um sinal do inquisidor, o carrasco largava a corda, deixando-o cair com velocidade em direcção ao chão. Quando estava quase a bater, a corda era subitamente sustada, causando um violento choque que provocava o enterrar das cordas na carne. Outra variante deste tormento, aplicada aos presos com saúde débil, residia em deitar o réu numa espécie de mesa - o potro - igualmente amarrado com cordas, que uma roldana manipulada pelo carrasco esticava e fazia enterrar na carne dos réus.” (NETO, Antero, in “Marcas Arquitectónicas Judaicas e Vítimas da Inquisição no Concelho de Mogadouro. D. Luis Carvajal y de La Cueva”, Lema d’Origem, 2013)

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

O ancestral fabrico da telha - utensílios


Fotos: Antero Neto (forno da telha de Bruçó).

Utensílios usados no fabrico da telha
1 - Grade - rectângulo de ferro, mais estreito numa das extremidades, onde se deitava o barro.
2 - Galapo - molde feito de choupo ou castanho, em forma de telha, e provido de um pequeno cabo, onde se coloca o barro que sai da forma.
3 - Raseiro - pau redondo, com cerca de 0,30 m de comprimento e 0,05 m de diâmetro, para alisar a telha sobre a grade.
4 - Masseiro - recipiente feito de madeira ou cavado num cepo. Contém água para o talhador molhar as mãos.
5 - Talheiro - tábua larga ou mesa. Assentava nele a grade, e servia para suporte do barro enquadrado na grade.
6 - Espadagão - pau comprido, de secção triangular, com que se açoitava o barro para o amaciar, depois de pisado pelos animais.
7 - Rodo - espécie de engaço para puxar as brasas.
8 - Ranhadouro - vareiro de carvalho ou freixo, com cerca de 5 metros, para levantar a lenha.
9 - Latão - badil (o mesmo que pá de ferro) grande, feito de folha de ferro, para deitar as brasas sobre o forno. 
Fonte: P.e Belarmino Augusto Afonso - “A Cerâmica Artesanal no Distrito de Bragança – sua diversidade e extinção gradual”. (NETO, Antero, in "O Farandulo de Tó e outros apontamentos monográficos", Lema d'Origem, 2013)

terça-feira, 29 de Julho de 2014

O cultivo do sumagre em terras de Mogadouro

“He abundante de trigo, centeyo, vinho, algum azeite, muito sumagre, castanha, linho pouco, e boas hortaliças.”

Descrição corográfica da aldeia de Bruçó (1747)
Sumagre, nas arribas de Vilarinho dos Galegos (foto: Antero Neto).

No entanto, [o sumagre] chegou a ser uma das principais fontes de riqueza das zonas ribeirinhas transmontanas, nomeadamente nos séc.s XVI e XVII. A esse facto não é alheia a forte comunidade judaica transmontana com ligação à curtição e comercialização de peles (com reminiscências recentes nas localidades de Carção e Argozelo, no concelho de Vimioso, onde ficaram famosos os peliqueiros).
O uso do sumagre era precedido de um processo de preparação que envolvia a secagem das folhas e subsequente redução a pó em moinhos próprios, muito semelhantes aos do azeite, e que se denominavam atafonas.
Foi na transição do séc. XVII para o séc. XVIII que se deu o auge desta cultura em toda a região de Riba-Douro, chegando a assumir um certo protagonismo nas exportações portuguesas para o norte da Europa, que era grande produtor de peles, mas que não produzia sumagre, que apenas se dá em zonas com clima mediterrânico.” (NETO, Antero, in, BRUÇÓ - As Memórias Paroquiais de 1747 e 1758 - Notas Históricas e Etnográficas)

segunda-feira, 28 de Julho de 2014

A música de Mogadouro a gostar dela própria

Sementes da Terra - " Ó Helena " from MPAGDP on Vimeo.

Mais um belo fragmento da "música portuguesa a gostar dela própria", um grande e notável projecto do Tiago Pereira, a merecer mais atenção dessa malta que tem o dom semi-divino de distribuir subvenções. Deixo aqui um abraço ao Tiago, cujo trabalho merece todo o carinho do mundo, pois tem sabido recolher o que de mais genuíno se cria nas terras portuguesas distantes da toda poderosa capital. Ao mesmo tempo que nos leva estes pedacinhos das nossas soturnas almas, o Tiago vai retribuindo com injecções cirúrgicas da sua contagiante alegria. Um grande bem hajas!
Deixo igualmente uma palavra de apreço para o esforço que também por aqui vai sendo feito pelo Victor Valdemar Lopes para a recuperação e valorização do cancioneiro popular mogadourense. Sim, porque ele existe, por muito que alguns o queiram ofuscar...
Foto: Antero Neto.

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Red Burros Fly-in

Aí está a 5.ª edição deste magnífico festival aéreo que se realiza no aeródromo de Mogadouro (Azinhoso). É já no próximo sábado. Para os amantes das asas e da fotografia.

quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Igreja e castro de Vilarinho dos Galegos

Durante a semana passada, desloquei-me por diversas vezes a Vilarinho dos Galegos. Numa delas, fui ver a igreja local, depois de ter sido alertado pelo Dr. António Dinis para uma curiosa pedra existente no chão da mesma.
Interessante e empolgante descoberta. Terá vindo de um dólmen? Ou terá sido talhada num painel fixo? Qual será a sua origem? Enigmas de resposta praticamente impossível.
O Dr. Dinis teve ainda a amabilidade de me fazer uma visita guiada às obras de recuperação do castro de Vilarinho ("Castelo dos Mouros"). Foi muito interessante observar no local as evidências da ocupação cronológica do sítio. Ocupação essa que, segundo o coordenador do projecto se terá estendido por diversas fases: Bronze, Ferro, presença romana e terá sido utilizado, provavelmente como ponto estratégico de defesa de fronteira, durante o processo de restauração da independência. As escavações assim o indicam. Mas, o melhor será esperar pela publicação em livro das conclusões para compreender o verdadeiro significado daquilo que está em causa.

Fotos: Antero Neto (clicar nas imagens para ampliar).
Esperemos agora que haja vontade política da parte do Município de Mogadouro para levar a cabo o que falta do projecto inicialmente gizado pelo Professor Dinis, para que este local se transforme numa efectiva mais valia para o concelho. Acredito que sim, pois, caso contrário, seria praticamente em vão todo o esforço desenvolvido até agora.

domingo, 20 de Julho de 2014

Festival da Terra Transmontana - dia 3. Balanço

Foto: Antero Neto.

Chegado ao fim, é tempo de fazer um balanço final do Festival da Terra Transmontana. Numa apreciação global, o resultado é claramente positivo. É para repetir, e repetir, e repetir...
Há algumas arestas a limar. É natural. Foi o primeiro. E é com a experiência que se aprende. Nem La Palisse diria melhor. Da minha parte, tenho apenas duas observações a fazer (que já transmiti pessoalmente a alguns dos responsáveis autárquicos):
1- Esqueçam as "medievalices" (estas coisas fazem-me sempre lembrar aquela velha história: "foge cão, que te fazem barão. Para onde, se me fazem visconde?"). De "Feiras Medievais" anda o povo cheio. É em Santa Maria da Feira, Óbidos, Caminha, Torre de Moncorvo, etc, etc... Substituam essa parte por actividades de recriação de tradições genuínas de Trás-os-Montes. E há tanto por onde escolher. Nada que não se possa ultrapassar.
2- Ao riquíssimo cartaz musical, acrescentem um convite a um dos mais prestigiados músicos portugueses da cena artística internacional. É filho da terra e... ama a sua terra! Falo do Christian Toucas. Tenho a certeza de que não será capaz de dizer não.
De resto, parabéns à organização por esta magnífica manifestação cultural TRANSMONTANA. Parabéns a Mogadouro, a toda a equipa autárquica e à ACEITTA.

Festival da Terra Transmontana - dia 2

Cumpriu-se ontem o segundo dia do Festival da Terra Transmontana. A chuva ainda ameaçou o evento, mas, ao final da tarde, o S. Pedro concedeu tréguas à organização e permitiu que os principais momentos decorressem sem mácula.
Houve um desfile com a habitual parafernália ligada ao folclore medievalista, sempre acompanhada pelos sons das gaitas e bombos. À noite, o espectáculo musical encheu novamente o recinto do castelo de cor, alegria, beleza, sensualidade e juventude. Numa só palavra: fabuloso!





Fotos: Antero Neto (clicar nas imagens para ampliar).

sábado, 19 de Julho de 2014

Festival da Terra Transmontana - dia 1. Mogadouro a gostar dele próprio...

Começou ontem a primeira edição do "Festival da Terra Transmontana" que anima por estes três dias a vila de Mogadouro. Fazendo minhas as palavras do Tiago Pereira, eis "Mogadouro a gostar dele próprio". A demonstrar pujança e dinâmica numa área onde estava a ficar claramente para trás. Grande festa, plena de cor, alegria e juventude. A escolha do cartaz musical está a revelar-se muito feliz. Se os que ainda não actuaram estiverem no mesmo patamar dos de ontem, então será perfeito. Para os visitantes que pretendam dar cá um saltinho, este Festival oferece ainda outro tipo de escolhas, nomeadamente em matéria de gastronomia, folclore e artesanato. Aqui ficam alguns instantâneos do primeiro dia:







Fotos: Antero Neto (clicar nas imagens para ampliar).

Entretanto, e à margem do Festival, parece que alguém anda com grande empenho a passar a ideia de que eu sou o inimigo público número um da chamada "cultura mirandesa". Permito-me citar, a propósito, o grande "filósofo" minhoto, Manuel Machado: "um cretino é um cretino; um vintém é um vintém"! Conquanto não digam que eu sou anti-mogadourense, ou anti-transmontano, esse é o lado para o qual eu durmo melhor...